A relação entre a osteoporose e as fraturas vertebrais é um assunto sério. Os danos vão muito para além da dor crónica. Há consequências catastróficas que podem e devem ser evitadas, porque a solução cirúrgica, com a aplicação de “cimento”, terá sempre resultados menos bons numa massa óssea frágil

O esqueleto humano é uma estrutura viva e dinâmica que, constantemente produz osso novo, removendo o mais antigo, num processo contínuo de remodelação. Claro que durante a infância e a adolescência, assiste-se a um crescimento rápido do esqueleto, principalmente entre os 15 e os 20 anos. Porém, o pico de massa óssea (que é maior nos homens do que nas mulheres) só atinge o seu valor mais elevado na terceira década de vida. Depois e a partir dos 40 anos, inicia-se o processo de perda e o ritmo não é igual para todos e todas.

Em média, a perda de massa óssea situa-se entre os 0,5% e 1% por ano e nos homens. Nas mulheres, o ritmo é mais acelerado e, na altura da menopausa, pode chegar a uma perda de 2% ou mais ao ano. Percebe-se agora porque o risco de osteoporose está dependente tanto do pico de massa óssea, que se atingiu na idade adulta, mas também da herança genética.

O aumento da longevidade e a osteoporose acabam por estar interligados, mas podemos acrescentar outros fatores potencialmente modificáveis, como a atividade física, a nutrição e o status hormonal.

E o que é isso da osteoporose? Pois bem, é uma desordem esquelética, que leva a um comprometimento da resistência do osso, criando assim a predisposição para um aumento do risco de fratura. Mas, não tem de ser sempre assim. É possível contrariar as previsões e inverter as estatísticas que registam milhões de fraturas vertebrais.

O exercício físico é, seguramente, uma das melhores formas de ganhar pontos, nesta espécie de corrida entre envelhecimento e perda de massa óssea. Aliás, estão publicados múltiplos estudos que apontam sempre para as inúmeras evidências do benefício da atividade física sobre os ossos, mesmo os osteoporóticos, não só pelos efeitos sobre a perda de massa óssea, como pelo reforço muscular, com consequente melhoria da resposta às quedas, mas também pelos efeitos psicológicos e benefícios na autonomia e autoestima.

Habitualmente, a osteoporose causa uma deformidade progressiva da coluna vertebral, com as consequentes dores crónicas, fadiga muscular, mobilidade limitada, perda de altura, cifose torácica (com limitação da capacidade respiratória) e perda de autonomia.

Sintomas que podem ser agravados pela preexistente fraqueza muscular e situação psicológica débil em indivíduos de idade avançada. Nuns casos, a fisioterapia pode ajudar a melhorar a qualidade de vida da pessoa, uma vez que proporciona um reforço da força muscular, reduzindo a dor e as anomalias posturais.

A deformidade progressiva da coluna vertebral, com a habitual cifose torácica, acaba por deslocar o centro da gravidade do corpo para a frente, com consequente maior carga sobre a posição anterior das vértebras. Consequentemente, os músculos posteriores e ligamentos são forçados a contrabalançar o aumento de inclinação e a porção anterior da coluna é obrigada a resistir ao stress compressivo.

Uma fratura num adulto com idade avançada pode ser um evento de consequências catastróficas e, simultaneamente, uma oportunidade para a chamada de atenção para as fraturas secundárias. O ideal será sempre evitar a primeira fratura e o foco deve centrar-se na prevenção.

O exercício físico é um bom aliado, já sabemos, mas a necessidade de assegurar aporte de cálcio e vitamina D em doentes ostoporóticos, seja através da dieta ou por suplementos alimentares, a par com uma dieta rica em proteínas, cessação tabágica e redução do consumo de álcool são fatores major quando se fala em prevenção de uma fratura. Junte-se ainda a preocupação por criar ambientes seguros e em reduzir o risco de quedas associadas ao desequilíbrio. E este é um trabalho que merece o empenho de todos, não só pelas estatísticas que provam um aumento de mortalidade associada a fraturas vertebrais osteoporóticas (entre 23 e 34%), mas também pela espiral de eventos que acaba por estar associada a essa mesma fratura.

A dor associada à perda de massa óssea e/ou fratura inicial leva à diminuição da capacidade pulmonar e autonomia da pessoa, com consequente diminuição da atividade, massa muscular e apetite o que, por sua vez, vai agravar ainda mais a perda de massa óssea, elevando o risco de fratura adicional com posterior agravamento de todos os fatores anteriores e consequências multiplicadas.

Se apesar de todos os cuidados e medidas a fratura da vértebra acontece o tratamento pode ser cirúrgico e não cirúrgico. O tratamento não cirúrgico pode ser (em algumas ocasiões) o mais adequado, principalmente em doentes com osteoporose marcada ou com fraturas anteriores. Nestes casos, o risco de fratura secundária é bem real e pode ocorrer entre 10 a 40% dos casos. Assim, as principais opções passam pelo repouso que, prolongado, pode contribuir para o exacerbar da perda de massa óssea, caso este se estende por meses. A analgesia nem sempre prova ser mais eficaz que o repouso e pode resultar em problemas adicionais, dado o grupo etário em causa.

Caso se opte por uma intervenção cirúrgica os resultados podem ser menos bons, tão só pela qualidade do osso de base. Ou seja, será possível fazer uma vertebroplastia, com a introdução de polimetilmetacrilato, vulgarmente designado por “cimento”, criando um acesso percutâneo com agulhas de calibre apropriado, sem tentativa de restauro da altura da vértebra. Por outro lado se houver necessidade de restaurar a altura dessa mesma vértebra, será aconselhado recorrer a outro tipo de técnica, utilizando um balão insuflável (cifoplastia) e posterior introdução de cimento nas cavidades criadas, a que se podem ainda juntar outras opções adicionais, como mechas de titânio ou dispositivos semelhantes ao macaco de um automóvel (spinejack).

Obviamente que muito se avançou nas últimas décadas no tratamento deste tipo de fratura, hoje beneficiada pelos conhecimentos para o tratamento e prevenção desta lesão. Mas, não é menos verdade que os resultados na recuperação total não são famosos, por isso insistimos na prevenção a médio e longo prazo e também por isso sublinhamos que este é um assunto sério.

O enfase terá de ser sempre na prevenção de quedas e adoção de estilos de vida saudáveis e, sempre que necessário, recorrer a suplementos para cobrir eventuais défices, esperados ou não. A educação para a saúde assume aqui uma especial importância, seja através de campanhas orientadas para os médicos assistentes, seja para eventuais grupos de autoajuda. O cuidado deve ser maximizado, no sentido de não serem criadas condições propiciadoras de fraturas secundárias adicionais, já que as vértebras não tratadas serão sempre mais delicadas que as infiltradas com material de elevada dureza, como é o chamado “cimento”, estando por isso mais sujeitas a uma subsequente fratura. Só assim se pode cumprir um dos primeiros primados da Medicina: “Primum non nocere”, ou seja, “Primeiro não faça nenhum mal”.

Gonçalo Costa
Médico Neurocirurgião

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