Para um cidadão obeso, pior do que conviver com a baixa autoestima, é ter que lidar com a fome. O equilíbrio é a resposta certa. Apetite, satisfação e saciedade são variáveis altamente determinantes e que devem ser incluídas na fórmula do tratamento da obesidade

A obesidade integra o grupo de doenças crónicas não transmissíveis e representa fator de risco para inúmeras patologias, particularmente para doenças cardio e cerebrovasculares, por estar intimamente associada a alterações metabólicas. Caracteriza-se pelo agravamento progressivo e assintomático do Índice de Massa Corporal, expressado em oscilações entre períodos de remissão e de exacerbação, popularmente designados por “ioiô”, cujo agravamento pode culminar em diferentes graus de incapacidade, ou até na morte. 

A sua etiologia assenta em causas multifatoriais e resulta da interação de fatores genéticos, metabólicos, hormonais (ainda que esta causa esteja na origem de menos de 1% dos casos), socioculturais e comportamentais. Na esmagadora maioria dos indivíduos, a doença está associada ao desequilíbrio entre a ingestão calórica e o dispêndio energético, verificando-se um aumento do tecido adiposo, em consequência do balanço energético positivo continuado.

O balanço energético pode ser definido pela diferença entre o aporte calórico, resultante da ingestão alimentar e o somatório entre a quantidade de energia despendida com o metabolismo basal (energia necessária à manutenção das funções vitais), e o dispêndio energético intrínseco às atividades diárias em geral. Este balanço resulta da influência de múltiplos fatores interdependentes, em que, para além da genética, da ação hormonal anorexigénica e orexigénica, as circunstâncias psico-sociofamiliares assumem também um papel altamente determinante nos mecanismos do apetite e da saciedade que, na sua globalidade, modelam o Comportamento Alimentar, sendo o peso e a composição corporal – particularmente o tecido adiposo – suscetível de aumentos patológicos preocupantes, independentemente do biótipo de cada indivíduo.

Em geral, quando se fala em prevenir ou tratar obesidade despontam de imediato conceitos de restrição calórica, propendendo o balanço energético negativo. Seria uma abordagem terapêutica altamente bem-sucedida, e não estaria a sociedade assolada por esta condição patológica, se o apetite, a satisfação e a saciedade não fossem variáveis altamente determinantes, a incluir na fórmula de cálculo para o equilíbrio do balanço energético.

O tratamento da obesidade depende, portanto, de um balanço energético negativo, que não descure as condições psico-sociofamiliares do doente, que considere as suas necessidades energéticas diárias, e privilegie a saciedade, em harmoniosa relação com a diminuição calórica. A privação energética, que nem sempre representa diminuição calórica, pode continuada e massivamente autossustentar o aumento da gordura corporal, pela sua ineficácia na diminuição do balanço energético, que em verdadeiro rigor, culmina em ciclos de privação, fome, frustração e insucesso, dando sustentabilidade ao agravamento da gordura corporal e do peso.

A severidade das restrições alimentares expressa-se em privação energética desequilibrada, que culmina em insatisfação, insaciedade e fome. A privação de hidratos de carbono, o recurso a “super alimentos”, pseudo “super pró-ativos” para a saúde, nem sempre “super hipocalóricos”, os jejuns intermitentes, as soluções depurantes, e tantas outras “milagrosas” estratégias massivamente divulgadas como “a solução” para o tão ambicionado emagrecimento, na prática, expressam-se em fome visual, volumétrica e energética.

Genericamente, a obesidade é associada a comportamento autonegligente de sobrealimentação, desleixe e sedentarismo, sendo esta estigmatização sociofamiliar fator altamente exacerbador do quadro de baixa autoestima, autoimagem e autoconfiança que, muito frequentemente, já são por si só, fatores impulsionadores de ingestão alimentar compensatória, determinantes da sua etiologia.

Para o obeso, mais difícil do que conviver com a baixa autoestima, é conseguir lidar com a fome! Quanto mais desequilibrada for a privação energética e mais ambiciosa for a inversão do balanço energético, maior será a probabilidade de ocorrência de perdas de controlo e compulsão alimentar em isolamento sociofamiliar, seguidas de penosos ciclos de restrição punitiva, castradora, purgativa da consciência, autossustentados pela severidade da restrição e pelos ciclos da fome.

Tratando-se de uma doença crónica, o tratamento depende da mudança de comportamentos e estilo de vida, sendo altamente determinante para o sucesso, que o mesmo incida na mudança de hábitos alimentares, de forma sustentada e continuada, alicerçada na saciedade energética constante, harmoniosamente conciliada com moderação ou restrição calórica, seletivamente veiculada por adequado, mas generoso e visualmente saciante volume alimentar.

O sucesso do tratamento da obesidade pode ser altamente condicionado pela perversidade da restrição alimentar…!

Paulo Mendes
(Nutricionista)

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