O que acontece no dia em que fazemos 65 anos? Nada, mas fica mais barato viajar de comboio. Não existe um antes e um depois, a ideia de envelhecer deve começar quase à nascença, tal como as estratégias que podemos adotar para manter um bom desempenho cognitivo. Fazer o que o cérebro gosta é o caminho.

Que o ser humano envelhece já todos sabem, mas nem sempre pensamos nisso e, muito menos, quando temos 10, 20 ou 30 anos de idade. Pois bem, fazemos mal. Os ganhos em qualidade de vida quando formos mais velhos não devem ser menosprezados ou adiados para quando fizermos 65 anos de idade. Esse é apenas um marco, convencional. Ninguém envelhece abruptamente, o processo é lento e deve ser preparado. E se já conseguimos aumentar a esperança média de vida, ainda nos falta perceber que esses ganhos em anos devem ser vividos com qualidade. E, obviamente, o desempenho cognitivo é importante e isso exige empenho e um trabalho direcionado para esse objetivo, independentemente da idade, seja aos 20, 40; 70 ou 80 anos.

Vamos explicar. Há três coisas que o cérebro seguramente gosta e que também são a base de um bom desempenho cognitivo: organização, prazer e desafios. Independentemente da idade, devemos ter presente estes interesses do cérebro, incluindo-os no nosso quotidiano e aceitando-os como a melhor terapia para evitar e/ou adiar uma demência futura, que pode (não) chegar aos 60, aos 70 ou aos 90 anos.

Ainda é necessário juntar outros atrativos: a escolaridade/aprendizagem e/ou a cultura, tudo ingredientes que ajudam a preservar o desempenho cognitivo. Junte-se ainda uma alimentação saudável, a prática diária de exercício físico e a socialização/convívio. 

Não se exige que se inscreva num ginásio aos 70 anos de idade, mas podemos sublinhar que caminhar, nadar, dançar, ler, escrever, pintar, fazer jogos, jardinagem, tocar um instrumento, ir ao teatro/cinema, a exposições, palestras ou  viajar, não só atrasam o início de uma demência, como também podem diminuir os seus efeitos, quando ela se instala. 

Por outro lado, o stress, a ansiedade, a depressão, o isolamento e o sedentarismo por si só afetam algumas formas de memória e são reconhecidos como fatores de risco para demência.

Estima-se que cerca de 45% das pessoas com 90 anos de idade estão afetadas com um tipo de demência. Sabe-se ainda que as várias alterações cerebrais que podem levar à demência acontecem 5 a 10 anos antes dos primeiros sintomas e/ou diagnóstico. Razão porque as medidas preventivas são importantes e não devemos esperar pelos 65 anos de idade para pensar no assunto. Aliás, hoje, a ciência já nos permite diagnosticar esse mesmo processo que irá culminar em demência, num período de 5 a 10 anos antes (de data ainda incerta). Mas de que vale antecipar esse diagnóstico ou essa certeza se ainda não existe uma medicação que seguramente inverta esse destino? De nada, claro. Por isso a ciência e os médicos são discretos nessa informação e insistem na divulgação dos instrumentos (ao alcance de todos) que impedem o declínio das capacidades e habilidades cognitivas e que, de alguma forma, protegem o cérebro de doenças neuro-degenerativas.

Vale a pena reter: perder memória não é uma característica inata ao envelhecimento e o nosso cérebro aprende e pode evoluir em todas as idades. Promover um envelhecimento ativo é uma obrigação individual, da sociedade e de todas as organizações. 

Texto elaborado a partir da Conversa no Exploratório,
com Isabel Santana (médica neurologista).

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