Não é por preguiça e, na maioria das vezes, também não existem problemas psicológicos, há fatores que explicam a enurese noturna e algumas medidas simples que ajudam a evitar o chichi na cama

Acordar e encontrar a cama ou o pijama do filho molhado, não é raro, é até uma situação de alguma forma comum até aos 6/7 anos de idade. O controlo da emissão da urina ocorre habitualmente até aos 3-4 anos de idade, mas há uma percentagem significativa de crianças que continua a molhar a cama com uma regularidade de duas ou mais vezes por semana: cerca de 20% das crianças aos 5 anos e 5% aos 10 anos, podendo mesmo prolongar-se até à adolescência. É só a partir dos 5 anos que esta situação começa a ser valorizada e o termo médico utilizado é enurese noturna.

Porque acontece?

Contrariamente ao que muitos pais pensam, não é por preguiça ou culpa das crianças que acontecem os episódios de chichi na cama. A maturação dos músculos, que controlam a saída da urina da bexiga, está ligada ao desenvolvimento da criança. E, assim como há crianças que falam ou andam mais tarde, há outras que tardam a largar as fraldas. Contudo, há outros fatores que têm sido apontados como facilitadores da enurese:

  1. Maior profundidade do sono – nestas crianças, o sono parece ser mais profundo, o que as impede de ter a sensação de bexiga cheia;
  2. Menor dimensão da bexiga – nalgumas crianças, a bexiga pode não ter o volume suficiente para conter toda a urina da noite;
  3. Insuficiente produção noturna de hormona antidiurética (ADH) – o aumento da produção noturna de ADH, que é produzida com o propósito de diminuir o volume da urina e torná-la mais concentrada, não é adequado nalgumas crianças, e assim a quantidade de urina é exagerada;
  4. Fatores genéticos – a existência de familiares (pais, irmãos…) com o mesmo problema, aumenta muito a probabilidade da sua ocorrência na criança.

Os fatores apontados estão habitualmente relacionados com a enurese primária, situação em que a criança nunca deixou de fazer chichi na cama. Neste caso, raramente estão em causa problemas psicológicos. Mas há problemas orgânicos, como a obstipação (prisão de ventre) ou o ressonar, que facilitam a ocorrência de enurese.

Se a criança já conseguia controlar a emissão de urina há mais de seis meses, e recomeça a ter perdas – enurese secundária – pode haver um problema subjacente, como uma infeção urinária, diabetes, ou uma razão psicológica como uma mudança de escola, a chegada de um irmão, o divórcio dos pais, ou mesmo maus-tratos.

 

Que repercussões na criança?

Os problemas psicológicos raramente constituem uma causa da enurese primária, mas podem ser uma consequência. O embaraço causado por comentários dos pais e familiares ou a imprevisibilidade da ocorrência de um descuido deste tipo, numa noite, em casa de um amigo ou num campo de férias, podem ter alguns efeitos negativos na criança, nomeadamente na sua autoestima, no desempenho escolar ou mesmo favorecer o isolamento social.

Nas crianças com enurese há também uma maior frequência de pesadelos do que nas crianças em geral. Se a criança é acordada para a mudança da roupa da cama e/ou do pijama, uma ou mais vezes durante a noite, a sua qualidade de sono pode ser perturbada com consequente cansaço no dia seguinte.

Conselhos aos pais

Em primeiro lugar é necessário que os pais tenham a informação adequada acerca da habitual benignidade da situação, não obstante o incómodo que possa representar para a criança e para si próprios. O conhecimento de que se trata de uma situação transitória e independente da vontade do filho ajuda os pais a gerirem a situação com mais calma, evitando a ocorrência de ansiedade na criança. E assim, de uma maneira geral, até aos 6 -7 anos de idade são apenas instituídas medidas comportamentais. Depois desta idade e dependendo de vários fatores (desejo da família, saída ou viagem da criança, situação mais prolongada, …) podem ser adicionados outro tipo de tratamentos, medicamentosos ou com dispositivo de alarme. Em qualquer caso, há que assegurar de que se houver obstipação ou ressonar associados, estes devem ser tratados.

Dicas que vão ajudar

Mantenha sobretudo uma atitude calma e positiva e constitua o apoio do seu filho enquanto tenta aplicar algumas medidas que recomendamos:

  1. Aborde o assunto com naturalidade – explique que as vias nervosas que levam ao cérebro a informação de que a bexiga está cheia estão a amadurecer, e que o problema é temporário com tendência a diminuir de intensidade até desaparecer;
  2. Nunca repreenda ou castigue a criança (ela não tem culpa da perda de urina) – faça-a sentir-se apoiada;
  3. Promova a ingestão abundante de líquidos durante o dia e a sua redução a partir do final da tarde;
  4. Promova o treino da bexiga – ensine a controlar a vontade de urinar, não indo de imediato ao quarto de banho;
  5. Deve evitar a ingestão de bebidas cafeinadas (coca-cola, chocolate, …) a partir do meio da tarde;
  6. Deve incentivar a criança a urinar antes de ir para a cama e sugerir a ida ao quarto de banho durante a noite, quando tiver necessidade;
  7. Se necessário, deve iluminar o trajeto para o quarto de banho com luz de presença;
  8. Deixar o redutor aplicado na sanita e degrau (se for indicado);
  9. Deixar roupa suplementar (pijama e lençóis) ao lado da cama para facilitar a troca de roupa (a cama pode ficar com uma dupla camada de resguardo e lençol);
  10. Pedir a colaboração da criança para a tarefa de mudança de roupa da cama;
  11. Felicitar sempre a criança se estiver seca ao acordar;
  12. Arranjar um calendário em que são registados os dias em que a criança acorda seca e combinar um esquema de recompensas.

Utilização de medicamentos

Em determinadas circunstâncias – dormidas em casa de amigos, campos de férias – ou no caso das crianças mais velhas, as medidas comportamentais revelam-se insuficientes e é necessário recorrer à utilização de fármacos. Um dos medicamentos mais utilizados é um substituto da hormona antidiurética em défice, tomado algum tempo antes de deitar, e que permite que a criança possa ter noites secas, reduzindo-lhe de forma significativa a ansiedade gerada pelo risco de um “deslize” confrangedor.

Utilização de alarme urinário

O alarme urinário é um dispositivo cuja utilização consiste na aplicação de um sensor, sensível à humidade, na roupa interior da criança e que alarma assim que ocorre a eliminação da 1ª gota de urina. O sinal sonoro acorda a criança que se deverá levantar e dirigir ao quarto de banho para urinar. O objetivo é que se vá construindo um condicionamento gradual da criança, que acorda cada vez mais cedo para urinar, deixando a determinada altura de necessitar do alarme. Efetivamente, estes alarmes não têm sido muito utilizados pelo elevado custo de aquisição e porque os outros elementos da família acabam por acordar antes da própria criança, que frequentemente tem um sono pesado.

Quando se preocupar ou pedir ajuda?

Se não há uma tendência para uma melhoria gradual e a situação tende a persistir para além dos 5-6 anos, deve ser procurada orientação médica.

Em qualquer idade, se a criança já teve controlo da urina durante alguns meses, e recomeçou a ter incontinência, deve recorrer de imediato ao médico assistente para que seja efetuado o rastreio de causas eventualmente tratáveis.

Mensagem

Vários amiguinhos do seu filho/a têm o mesmo problema. Talvez o mesmo tenha acontecido consigo…. e acabou por desaparecer! Tenha calma, fale do assunto de forma natural, não dramatize, não o castigue, incentive-o e motive-o a melhorar. Ajude-o a sentir-se uma criança feliz!

Maria Helena Estêvão

(Pediatra com Competência em Medicina do Sono)

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