O ditado diz precisamente o contrário mas, neste caso, a sabedoria popular enganou-se. São os estímulos, as novas aprendizagens, experiências e desafios que previnem o declínio cognitivo. O segredo da prevenção está na plasticidade cerebral.

O cérebro é tão só a grande “central de descodificação” que traduz toda a informação enviada pelos sentidos e é assim que, conscientemente, conseguimos ver, ouvir, cheirar, sentir; mas também é o cérebro que comanda as nossas ações e assim controla a marcha, a fome, o sono, os sonhos, o medo, a imaginação, o pensamento, a memória, o conhecimento… No centro nevrálgico de todo este “comando” estão biliões de células nervosas, os neurónios.

Organizadas em camadas (que constituem o córtex cerebral ou substância cinzenta) e com múltiplas ligações (árvores dendríticas e axónios), as células nervosas constituem uma imensa rede de comunicação (redes ou circuitos neuronais), que mantém tudo em funcionamento. É impossível fazermos aqui uma comparação mais percetível sobre este “equipamento” e modo de funcionamento, porque o cérebro é isso mesmo inigualável. Podemos acrescentar outros adjetivos, porque também é insubstituível e indispensável. A inteligência artificial tenta reproduzir este modelo de redes neuronais mas ainda tem sérias limitações, sobretudo no que respeita à capacidade final de decisão e da empatia.

São as células cerebrais que estabelecem comunicação umas com as outras, transmitindo mensagens químicas, através dos neurotransmissores ou sinais elétricos, e isto ocorre através de “pontos de contato” – as sinapses.

Uma criança de dois anos tem cerca de 100 triliões de conexões/sinapses que irão duplicar até chegar à vida adulta. É esta a base biológica da aprendizagem – em resposta a novos desafios, desenvolvem-se novas sinapses que se organizam em redes neuronais dedicadas (circuitos), que permitem processar cada vez com maior facilidade, velocidade e sofisticação a informação recebida e construir um edifício de conhecimento e oportunidades.

É assim que a criança aprende a falar (a capacidade de linguagem): partindo de ligações simples que asseguram a atividade rudimentar de repetir o que ouve (“mama, papa…”) e atribuindo-lhe um significado (será mama ou mamã? papa ou papá?). É assim que constrói um armazém de palavras (vocabulário), que aprenderá a reunir em frases com uma estrutura gramatical típica de cada língua, também traduzidas na leitura e na escrita. E é exatamente esta capacidade distintiva da nossa espécie, (a “escrita”), transferida e enriquecida de geração em geração, que nos tem permitido evoluir e modificar o mundo – para o bem e para o mal!

O desenvolvimento de novas sinapses mantém-se ao longo de toda a nossa vida, em resposta às nossas vivências e necessidades de mudança. Na idade adulta não terá o fulgor alucinante da infância mas será, em compensação, muito mais calculista e orientado para as nossas principais solicitações.

As redes de neurónios são constantemente reformulados e desenhadas, com desenvolvimento de novos circuitos, que se tornarão preferenciais e a eliminação (“poda”) de outros menos preponderantes. 

Este processo designa-se por plasticidade. Será em consequência deste processo, de “apagar” alguns circuitos, que a partir do final da infância se torna difícil aprender os sons que não fazem parte da nossa língua materna, fazendo com que uma nova língua seja sempre falada com sotaque. Admitimos que foi assim que nasceu o ditado “Burro velho não aprende línguas”. Mas a ressonância magnética funcional já demonstrou que o “burro velho” pode mesmo aprender línguas”, desmistificando o ditado popular.

No envelhecimento, os circuitos poderão ser mais rígidos, mas o cérebro (sobretudo o humano) tem esta caraterística impar: a neuro-plasticidade e esta particularidade existe desde que nascemos e mantém-se assim até morrermos. Ou seja, se o ambiente muda, também ele pode mudar, regenerando-se. O ritmo pode mudar, é certo, mas é cada um de nós que impõe essa cadência. E porque o cérebro gosta de novidades, prazer e desafios, o bom desempenho cognitivo ao longo da vida depende disso mesmo. E como podemos fazer isso? Sempre que aprendemos uma nova língua, ou outro tipo de aprendizagem ou quando passamos por experiências novas, obrigando o cérebro a se reorganizar, criando novas redes e novas soluções – a chamada reserva cognitiva.

Estimular o cérebro ao longo da vida, aumentando a reserva cognitiva, é o instrumento que todos dispõem para retardar as doenças neuro degenerativas, como a Doença de Alzheimer. Ouvir música, ler um livro, aprender a andar de bicicleta, socializar, seguir uma alimentação saudável, praticar exercício físico diário; fazer aquela viagem que temos vindo a adiar… Ou seja, fazer o que ainda não foi feito é o caminho seguro para um cérebro saudável.

Há ainda uma segunda nota a reter. Ninguém envelhece abruptamente. Quando pensar que será amanhã, ou depois de amanhã, o momento certo para planear uma velhice saudável, desengane-se. Começamos a envelhecer no dia em que nascemos.

Isabel Santana
(Médica, Neurologista)

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