Chamam-lhe anel e tem razão de ser, não só pela forma, mas porque, efetivamente é um elo de ligação. Diz-se que será preciso o peso de um elefante para que este mesmo anel quebre. Não é preciso testar o dito popular, os acidentes, as quedas ou as fragilidades têm demonstrado que o anel pélvico quebra sem necessidade de chamar um elefante. Os traumatismos da bacia são uma conquista da cirurgia ortopédica. Hoje, o episódio da Bíblia “Levanta-te e anda” é reproduzido ao fim de longas horas de trabalho no bloco operatório, numa cirurgia exigente e altamente complexa. É esta especialização diferenciada em bacia e anca que empurra António Figueiredo, médico ortopedista, para as inúmeras salas operatórias do país
«Pela bacia se nasce e pela bacia se pode morrer, seja por traumatismo, seja por uma complicação de um ato cirúrgico, por isso grande parte dos colegas não mexe nos traumatismos da bacia, exige diferenciação e técnica». António Figueiredo, médico ortopedista, trabalhou essa diferenciação, seja em formações noutros países, seja no seu hospital, onde se começou por perceber que mexer na bacia não é para todos. «Esta foi uma conquista da cirurgia ortopédica e a intervenção é muito exigente, muito trabalhosa, cheia de riscos e de complicações».
António Figueiredo começou por tentar perceber como se faz a avaliação de cada caso, depois, foi experienciar como se faz a cirurgia e, mais tarde, quis fazer isso mesmo em Coimbra e em Portugal. Há 20 anos que anda a replicar o episódio bíblico (levanta-te e anda) por esse país fora. «Chamam-me e eu tenho de ir. Sabem que não posso deixar de ir». Tem experiência acumulada.
A bacia acaba por ser muito resistente, «sem dúvida. Aliás, para abrir um anel pélvico diz-se que será preciso uma força equivalente ao peso de um elefante, imagine a violência envolvida nos grandes acidentes de viação. São maioritariamente jovens, as vítimas que nos aparecem com este dilema». Uma fratura da bacia pode matar, não por si só, mas porque está quase sempre associada a uma grande perda de sangue. «Uma vez fraturada, a bacia fica instável e pode conter várias vezes o volume de sangue em circulação».
António Figueiredo acrescenta ainda que esta é uma realidade em crescendo, por força da qualidade da emergência pré-hospitalar, «porque se antes estes casos morriam no local do acidente ou a caminho do hospital. Hoje, isso não acontece. A vítima do acidente é logo estabilizada e impede-se que o sinistrado morra no local, esvaído em sangue, cabe ao cirurgião recuperar esta vítima».
A bacia representa o elo de ligação entre o esqueleto axial e os membros inferiores e por isso uma fratura dessa articulação terá sempre sequelas dramáticas, se a anatomia e a estabilidade da bacia não foram repostas. A cirurgia pode mudar esse destino e, no caso dos jovens, a decisão de fazer uma cirurgia impõem-se.
«Contudo, nas pessoas mais idosas será sempre necessária uma avaliação redobrada e muito bom-senso. Um idoso dificilmente aguentará uma re-operação, terá de correr tudo bem logo à primeira». E porquê? Porque, nos idosos os ossos são muito mais frágeis, além de fraturarem a bacia com uma simples queda, ou seja, sem grandes forças ou impactos; os ossos são muito mais frágeis. «O osso parte em vários sítios e estilhaça, o que nos cria vários problemas e dilemas. Se não operarmos estes casos, as pessoas ficam limitadas a uma cama, dependentes e com todos os prejuízos para os outros órgãos por a pessoa ficar acamada. Mas, se formos agressivos no tratamento cirúrgico podem morrer na mesma. Temos que encontrar um meio-termo…», explica.
«Claro que nem todas as fraturas precisam de cirurgia, há fraturas tratadas de forma conservadora, sem intervenção e que têm sucesso. Por isso o mais importante de tudo é o cirurgião saber avaliar a fratura. Depois, se decidir avançar para cirurgia, tem de ter a certeza do que vai fazer, não se pode criar um dano maior». Sublinha António Figueiredo.
«Repare que se eu tiver uma dor no ombro ou uma artrose no joelho, nenhum desses problemas será tão evidente como uma artrose na anca. Precisamos sempre de uma anca sã para calçar as meias, para a nossa vida íntima, para nos sentarmos… para tudo… e por isso consideramos a anca como a rainha das articulações». Mas, para que tudo funcione na perfeição nesta ou em qualquer outra articulação, não podem existir pedras ou areias nas superfícies. «Todas as paredes têm de estar perfeitamente lisas e os fragmentos devem ser colocados o mais possível na sua posição anatómica. Uma vez tratada a superfície, temos de fixar esses fragmentos, para que não voltem a sair do sítio». É nestes casos que o ortopedista recorre a placas e parafusos, «depois, com o tempo, a nova massa óssea vai regenerar toda aquela área. Claro que nos idosos, há o problema acrescido da fixação porque, não raras vezes, o osso está multifragmentado».
António Figueiredo lembra que «nada disto era possível há um par de décadas. Há 50/60 anos, a Ortopedia nem tinha uma enfermaria, os doentes iam cair na Cirurgia Geral e nem havia cirurgias, eram esticados na cama e pouco mais, esperava-se que o tempo resolvesse».
A evolução tecnológica, a qualidade das imagens dos exames de diagnóstico e evolução dos materiais justifica a mudança na Ortopedia, que hoje executa. A artroscopia já é a técnica preferencial na intervenção de algumas cirurgias, com toda a vantagem de uma abordagem menos invasiva, sem necessidade de expor tecidos e com claros benefícios para o doente, quer em segurança, quer no tempo de recuperação. Depois, o próprio material dos implantes e próteses, que não pode nem deve ser rejeitado, também evoluiu.
«A realidade mudou muito», conclui António Figueiredo, o cirurgião que se fez médico, mas que (ainda hoje) tem saudades da matemática.
Conceição Abreu

Fico feliz termos em Coimbra médico com estas competências e que bem preciso é em muitas situações, que à partida ,não teriam solução e limitavam ou limitam e bem a mobilidade de muitos jovens, abrangidos por essas situações. Será uma mais valia para o CCC.
ReplySr.Dra.Conceição
ReplyObrigada por mais informações muito uteis para quem tem mais de 80 anos!
Boa tarde. Obrigado. Gostamos de prestar a melhor informação a todas as idades. Fico feliz por saber que conseguimos. Fique bem.
ReplyMeu querido amigo e salvador Dr. António Figueiredo. Grande abraço
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