O número de pessoas com doenças alérgicas está a aumentar entre 10 a 20 por cento, em cada dez anos. As rinites andam aí e a culpa é dos pólenes que, em meio urbano, ficam mais agressivos. O peso genético é forte e o risco de uma criança vir a desenvolver uma doença alérgica é superior a 50% se um dos familiares sofrer de alergias.

Nos estudos epidemiológicos, realizados nas últimas décadas na Europa, observou-se um aumento exponencial de todas as doenças alérgicas Em cada 10 anos, as doenças alérgicas aumentam 10 a 20 por cento, principalmente a rinite e o eczema atópico. Em Portugal, estima-se que 20% da população sofra de rinite, 10 % de asma, 10 % de eczema atópico e 5% de alergia alimentar, desconhecendo-se ainda a real incidência de alergia a medicamentos. Acredita-se que este facto pode estar relacionado com alterações do clima, aumento de poluição atmosférica e mudanças do estilo de vida e dos hábitos alimentares das populações desde os primeiros meses de vida.

O desenvolvimento de alergias depende, em grande medida, da exposição aos alergénios presentes no ambiente onde crescemos e vivemos e, em Portugal, predominam as alergias aos ácaros, fungos ou animais presentes no ambiente doméstico ou no local de trabalho, mas também aos pólenes das ervas, árvores e arbustos, além das esporádicas reações alérgicas a alguns alimentos, mais frequentes na criança, como o leite de vaca, os ovos, o peixe, o trigo, mariscos e frutos secos.

Nas doenças alérgicas o risco é hereditário. Por terem uma base genética, as alergias são mais comuns nas crianças com pai, mãe ou irmão com doença alérgica. Se na família, o pai ou a mãe ou ambos, sofrem de alergias, o risco da criança vir a desenvolver uma doença alérgica situa-se acima dos 50%. O risco é ainda mais elevado se, na infância, esta mesma criança sofreu de alergia às proteínas do leite de vaca, eczema e/ou “bronquiolites”. Por outro lado, quando na família não há casos de alergias, o risco de ter uma doença alérgica é inferior a 5%.

As alterações climáticas e o aumento da agressividade dos pólenes em meio urbano podem justificar o facto de a rinite estar a afetar uma fatia cada vez maior da população portuguesa. Durante a época polínica, as concentrações dos pólenes são maiores nos dias quentes e secos, principalmente, nos dias ventosos e, pelo contrário, diminuem consideravelmente nos dias chuvosos e húmidos. As alterações climáticas observadas nos últimos anos, com tempo seco, quente, ventoso, baixa humidade e pluviosidade nula fazem com que as plantas, que normalmente polinizavam entre Março a Julho, polinizem mais cedo, com picos de concentração dos pólenes mais elevados. Como há uma relação direta entre os níveis atmosféricos dos pólenes e a intensidade das queixas, isto explica porque as pessoas têm mais queixas nos períodos com altos níveis de pólenes no ar. As crianças são particularmente sensíveis e revelam sintomas de rinite, conjuntivite e asma cada vez mais cedo, mesmo em idade pré-escolar.

Ao contrário do que se poderia pensar, as pessoas que vivem na cidade não estão mais protegidas contra a alergia aos pólenes, em relação às do ambiente rural. O pólen em meio urbano é mais agressivo, porque a poluição destrói a camada protetora externa do pólen e o interior responsável pela alergia acaba por ficar diretamente exposto com a mucosa das fossas nasais, do olho, brônquios e pele. Esta é uma das principais razões por que a população das cidades sofre cada vez mais cedo e com mais intensidade os sintomas das alergias na chegada da primavera.

Emília Faria (imunoalergologista)

 

Pólenes identificados
Os pólenes que provocam alergias têm origem em várias espécies de árvores, ervas e outras plantas. Dependem, em grande medida, da quantidade e tipo de árvores e ervas da região onde vivemos. Em Portugal, a principal causa de alergia a pólenes são as gramíneas (“fenos, ervas daninhas, relvados”), erva parietária (“alfavaca de cobra”) e os pólenes de árvores, principalmente a oliveira. Outras plantas responsáveis são: plantago (língua de ovelha), pinheiro, plátano, artemísia, bétula, cipreste, castanheiro, carvalho, acácias e salgueiro.

A forma mais habitual de manifestação de alergia a pólenes (também designada por febre dos fenos) é a rinite, que se manifesta por crises de espirros, prurido nasal (comichão), corrimento nasal (nariz a pingar), congestão nasal (nariz entupido) e tosse. A rinite associa-se frequentemente a conjuntivite alérgica, que se manifesta por olho vermelho, lacrimejo e prurido ocular, nas crianças mais pequenas este é, por vezes, o primeiro sintoma. Podem surgir também crises de asma, mais frequente nas crianças, caracterizadas por tosse, falta de ar ou pieira (“chiadeira” ou “gatinhos”) ou sinusite. Em situação de crise alérgica, estas pessoas têm grave dificuldade em dormir, apresentam-se sonolentas durante o dia e têm baixo rendimento escolar ou laboral.

Nem todas as pessoas têm manifestações de alergia aos pólenes na mesma altura, porque os picos polínicos são diferentes de planta para planta ao longo do ano. O doente alérgico, não medicado, tem sintomas mais graves nos períodos em que os pólenes a que é alérgico atingem a concentração atmosférica máxima. A divulgação semanal dos níveis de pólenes existentes no ar atmosférico em Portugal, designado de Boletim Polínico Nacional, está disponível no site da Sociedade Portuguesa de Alergologia e Imunologia Clínica (SPAIC) e pode ser consultado em www.spaic.pt.

É fundamental um diagnóstico o mais precocemente possível, geralmente possível após os três anos de idade, para que o tratamento possa melhorar a qualidade de vida. Uma das opções mais eficazes passa pela terapêutica de dessensibilização ou imunoterapia, que consiste na administração de alergénicos em doses controladas, para contrariar a evolução da doença alérgica.

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