Autómatos, obedientes, sem empatia ou qualquer interação. Se a ideia é separar o corpo da mente, ponha um telemóvel nas mãos de uma criança. O exame clínico decorrerá sem percalços…

Ó Sr. Doutor, ele não é nada assim! – Gemia a mãe embaraçada.

A criança metia-lhe as mãos nos bolsos do casaco e na mala de mão, num frenesim insano e alheado do contexto em que se encontrava: um consultório médico. A mãe ia-se debatendo, enquanto debitava, atabalhoada, a história clínica da criança, por entre esticões, safanões e interjeições do miúdo que mantinha uma determinação frenética na procura de qualquer coisa que a mãe teimava em ocultar, numa atmosfera completamente irreal e perturbadora, que penosamente se ia prolongando.

Subitamente, a criança parou. Com um braço mergulhado no fundo do bolso da gabardina que a mãe dependurara nas costas da cadeira, percebia-se que tinha tacteado o que procurava: os olhos iluminaram-se e, pela primeira vez, pareceu inteirar-se do local onde se encontrava – um olhar rápido pelos presentes no consultório – e com um movimento brusco retirou vitorioso o objecto do fundo do esconderijo: um brilhante telemóvel prateado.

A mãe ainda balbuciou algo imperceptível, mas deu-se por rendida. A criança voltou a desconectar-se da realidade: focou a atenção no pequeno ecrã e apenas o corpo ficou presente no gabinete. Como um autómato obediente, deixou-se observar e sujeitou-se a todo o exame clínico, sem nunca desviar os olhos do objecto luminoso que tinha nas mãos.

Sem uma palavra, sem um olhar de empatia, sem qualquer interação social.

– Ó Sr. Doutor, ele não é nada assim! – Repetia a mãe a espaços, num misto embaraçoso de autoconvencimento. Senhora instruída e de perfil austero, com certeza quadro superior de empresa de sucesso, com uma vida dedicada ao trabalho, era evidente o contraste entre o rigor do discurso, a finura do raciocínio e a inabilidade na forma de relação com o filho.

Dei comigo a pensar numa geração educada de acordo com estereótipos formatados por programas de aprendizagem coletivistas – em creches, jardins infantis, escolas – com uma intervenção cada vez menor da unidade social tradicional: a família.

Crianças que crescem sem adultos para imitar, sem oportunidade para socializar ou estabelecer critérios de valores humanizados, sem possibilidade de explorar as suas próprias competências nos campos da empatia, da solidariedade, da tolerância, da complexidade de valores com participação e cedências sem humilhação, que nos tornam humanos. Jovens refugiados em mundos virtuais associados a lógicas de sucesso que potenciam a intransigência e o conflito. Mal preparados para gerir o “insucesso” e a frustração.

– Ele não é nada assim! – Saíram.

Em desenfreada correria entravam dois irmãos em cerrada competição pela cadeira giratória de observação – era a consulta seguinte …

 

Luís Filipe Silva
(Médico Otorrinolaringologista)

 

 

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