Proliferam os mitos e as dinâmicas do marketing. A autorrestrição alimentar está a aumentar. Retira-se o leite, o trigo, o açúcar e outros porque serão alegadamente responsáveis por autodiagnosticadas intolerâncias. O suporte científico não existe

A vulgarização generalizada das intolerâncias alimentares tem expressado um aumento significativo nos últimos anos, e representa um fenómeno social que dita uma tendência potencialmente perigosa, que pode constituir uma dissimulada ameaça para a saúde e desponta um relevante tema de reflexão.

A quantidade de pessoas que refere sofrer de algum tipo de intolerância alimentar tem sido exponencialmente crescente e a adoção de medidas de autorrestrição alimentar, mais ou menos severas, tem evoluído de forma proporcional. O leite, o trigo, o açúcar, entre tantos outros alimentos essenciais, são alguns dos géneros alimentares mais frequentemente apontados como responsáveis pelas alegadas autodiagnosticadas intolerâncias, que têm convergido para a padronização de uma conduta restritiva e fundamentalista, transversalmente desprovida de suporte científico.

É pertinente refletir acerca da natureza concetual que distingue Alergia Alimentar de Intolerância Alimentar que, numa desmedida tendência sustentada por modulação social de comportamentos, culmina cada vez mais em confusão de conceitos e autodiagnósticos incorretos.

As alergias alimentares resultam de uma reação do sistema imunitário a um ou a vários agentes específicos presentes nos alimentos. Neste contexto, o sistema imunitário reconhece esses agentes específicos como agressores e reage defensivamente, através da ativação de uma resposta imunitária, mais ou menos exuberante, que pode expressar sintomas como, urticária, edema da língua e garganta, dificuldades respiratórias e, no limite, reação anafilática severa que, na ausência de tratamento médico atempado, pode ser potencialmente fatal.

Já as intolerâncias alimentares não têm qualquer intervenção nem correlação com o sistema imunitário. Caraterizam-se por uma dificuldade do organismo em digerir ou metabolizar determinados alimentos que, em geral, podem expressar sintomas de natureza gastrointestinal, mas não representam ameaça com potencial risco de vida. Os sintomas mais frequentemente associados são a distensão abdominal, as cólicas intestinais, a flatulência e a diarreia, somatizados de forma mais ou menos exuberante, isolada ou cumulativamente entre si, em função da quantidade e da frequência da ingestão desses alimentos.

Contudo, nem sempre os sinais de reação imunitária são critério de diagnóstico de alergia alimentar, e nem sempre os sintomas conglomerados no âmbito do desconforto gastrointestinal são preditivos de intolerâncias alimentares. É importante proceder a uma averiguação diagnóstica, orientada por profissional de saúde habilitado a indicar as medidas terapêuticas mais adequadas às caraterísticas específicas de cada caso, em detrimento da adoção de restrições alimentares cegas, sustentadas pelas tendências empíricas.

Deste fenómeno social ditado por influenciadores, proliferam inúmeros mitos que, numa astuta dinâmica de marketing comercial, tendem a considerar o excesso de peso e a obesidade, como uma consequência das pseudo intolerâncias alimentares. A crença nesta correlação errática pode expressar duas consequências com relevante prejuízo para os seguidores da tendência: o consumo de testes de diagnóstico de intolerância alimentar e a auto-privação alimentar.

Sem sustentabilidade científica 

Os testes de tolerância alimentar não têm qualquer sustentabilidade científica e são desaconselhados pela Academia Europeia de Alergia e Imunologia Clínica, pela ineficácia e total ausência de credibilidade dos resultados que conferem.

A auto-privação alimentar sustentada nesses testes de tolerância alimentar, clinicamente infundamentados, induz a autorrestrição de alimentos que, por inerência, culmina na privação de nutrientes, passível de provocar desequilíbrios nutricionais, com sérias repercussões para a saúde. Paralelamente, importa desmistificar que o aumento de peso corporal não tem qualquer tipo de correlação com as intolerâncias alimentares, mas resulta do balanço positivo entre a ingestão e o despendido energético total diário.

Destacam-se com maior frequência e convicção fundamentalista as autodiagnosticadas pseudo intolerâncias ao glúten, ao leite e aos alimentos ricos em hidratos de carbono, como o pão, o arroz e as massas alimentícias. A autorrestrição injustificada de alimentos com glúten pode resultar no aporte insuficiente de fibras, no défice de vitaminas do complexo B e em défice de alguns minerais, como o ferro, suscetível de comprometer a produção de hemoglobina, a manutenção do sistema nervoso e a regulação da produção de energia.

De igual forma, a autorrestrição injustificada de lacticínios, pode culminar no défice de aporte de cálcio e de vitamina D, altamente importantes e determinantes para a integridade e funcionalidade do tecido ósseo. Já a privação de alimentos ricos em hidratos de carbono, condiciona o aporte de energia, necessário e suficiente para o pleno funcionamento do organismo, o que implica repercussões, mais ou menos severas, proporcionais à severidade da privação, quer ao nível do rendimento físico e cognitivo, quer ao nível da qualidade do sono, do estado de humor, e do bem-estar geral.

Em última instância, a privação injustificada de alimentos, de forma prolongada e continuada, pode resultar no desenvolvimento de uma intolerância alimentar adquirida, no desequilíbrio do estado nutricional e, por inerência, em prejuízo severo para a saúde.

À semelhança das alergias alimentares, também o diagnóstico das intolerâncias alimentares deve ser efetuado por profissionais de saúde habilitados para o efeito. O diagnóstico obtém-se através de uma ampla avaliação, efetuada com base na história clínica, na anamnese alimentar e respetiva correlação com sintomatologia identificada, bem como, pelo recurso a análises laboratoriais fidedignas que, na globalidade, fundamentam a delineação da estratégia terapêutica, que poderá consistir numa dieta de exclusão, devidamente monitorizada e ajustada às necessidades nutricionais específicas de cada pessoa.

Preocupante e perigoso

A moda das intolerâncias alimentares é um fenómeno social preocupante e perigoso, que pode comprometer a saúde dos seguidores da tendência. A consciencialização e valorização da importância da alimentação, ao longo de todo o ciclo de vida, é altamente determinante e preditiva para a saúde, contudo, a seletividade determinante dos hábitos alimentares individuais e até do padrão social, deve assentar em princípios, conceitos e teorias suportados por evidência científica, de forma a constituírem medidas de autocuidado proactivas para a saúde.

O autodiagnóstico, potencialmente impulsionador de restrições alimentares cegas, sustentadas pelas tendências empíricas, está associado a um risco muito elevado de converter um comportamento idealizado numa perspetiva basilar de autocuidado, numa conduta auto lesiva que, em vez de expressar beneficio, pode representar um perigo silencioso para a saúde.

As tendências e crenças alimentares globalmente difundidas através das redes sociais, devem ser sempre objeto de reflexão crítica, prévia à adoção de qualquer tipo de restrição ou privação. A mudança de hábitos alimentares, as evicções por convicção pessoal e por filoso􀏐ia de vida, assim como as dietas terapêuticas, independentemente do propósito que objetivarem, devem ser exclusivamente suportadas por evidência científica, estruturadas e monitorizadas por nutricionista, enquanto profissional de saúde habilitado para o efeito.

Paulo Mendes (Nutricionista; ON n.º 4968N)

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