Há uma disfunção real, mas não raras vezes, os sintomas acabam por ser confundidos com má educação ou preguiça. O despertar soa quando as notas baixam e, nessa altura, o funcionamento psicossocial já está afetado. Ser hiperativo e ter défice de atenção é mesmo uma perturbação do neurodesenvolvimento

A Perturbação de Hiperatividade e Défice de Atenção (PHDA) tem sido alvo de enorme atenção ao longo dos últimos anos, quer no meio científico, quer na comunicação social e canais de informação digitais. Desinformação, dúvidas e controvérsias têm contribuído para a perpetuação de mitos que, frequentemente, contribuem para aumentar o stress nos pacientes e nas suas famílias e desviar a atenção daquilo que realmente importa: identificar e intervir o mais precocemente possível.

Chega até a ser posta em causa a real existência deste quadro clínico, colocando-se a “culpa” em questões da parentalidade e das elevadas exigências académicas atuais: “má educação”, “preguiça”, “professores intolerantes”, “pouco tempo livre para brincar” ou mesmo “falta de afeto”; ao mesmo tempo que se demoniza o seu tratamento: “medicação em excesso”, “as crianças ficam a dormir“, “os efeitos secundários são terríveis a longo prazo”.

Afinal o que é a PHDA?

A PHDA é uma perturbação do neurodesenvolvimento que afeta, segundo estudos epidemiológicos internacionais, cerca de 5-7% da crianças em idade escolar e persiste na idade adulta em cerca de 50% dos casos.

Caracteriza-se por três sintomas nucleares principais: desatenção (dificuldades em iniciar, manter e finalizar tarefas) hiperatividade (aumento da atividade motora) e impulsividade (necessidade de gratificação imediata, agir antes de pensar), apesar de nem todos terem que estar sempre presentes. Associados, estão também alguns défices neuro cognitivos, ao nível das funções executivas (controlo inibitório, memória de trabalho, planeamento de ação).

A forma como os sintomas se manifestam pode variar de acordo com a idade e ao longo da vida, embora surjam nos diversos contextos e tenham impacto no funcionamento pessoal, interação com pares e família, desempenho escolar ou ocupacional das crianças, jovens e adultos afetados.

A sua origem é multifatorial e a investigação sustenta uma base neurobiológica, com marcada etiologia genética (coexiste frequentemente noutros elementos da família), envolvendo disfunção de várias regiões específicas do cérebro, entre as quais o córtex pré-frontal e suas conexões com os núcleos da base e cerebelo.

Apesar da importância de fatores ambientais, nomeadamente do ambiente sociofamiliar, no agravamento ou proteção relativamente às queixas de PHDA, estas não são a causa primária do seu surgimento.

E como se diagnostica?

Não existe atualmente nenhum marcador biológico (análises ou exames) para a PHDA, sendo o seu diagnóstico baseado exclusivamente em critérios clínicos descritos ou observáveis. Assim e em consulta é realizada uma história clínica detalhada, através da recolha de informação fornecida pelo próprio e pelos acompanhantes que deve ser conjugada com a de outras fontes de informação (por exemplo da escola). É também feita a exclusão de outros problemas que possam provocar queixas semelhantes, assim como de quadros concomitantes.

Sempre que se justifique, poderão ser sugeridas avaliações e/ou exames complementares para uma melhor clarificação do problema, do seu impacto ou para avaliação da segurança para introdução de medicação.

As queixas podem ser facilmente confundidas com “preguiça ou desinteresse” ou mesmo “má educação”, pelas dificuldades na concretização de tarefas que exijam esforço mental, desorganização, agitação, reações impulsivas, desregulação emocional e dificuldade na antecipação de consequências, o que também tem impacto na forma como se relacionam com os outros. E, ainda que a PHDA não interfira diretamente com a capacidade de aprender mas sim com a disponibilidade, manifesta-se frequentemente pelo mau desempenho escolar.

Paralelamente, educar uma criança com estas características é também um desafio, sendo fundamental a comunicação clara, planeamento e organização, regras e limites consistentes, o que, não sendo a origem do problema, é fator de proteção ou, na sua ausência, de agravamento.

No entanto, na maioria dos casos a PHDA não surge isolada. O mais habitual é que se acompanhe de outros quadros clínicos, que podem intensificar ou confundir as queixas e até serem o principal motivo de procura de ajuda. Os mais frequentes são os problemas de comportamento, ansiedade, perturbações do humor, problemas de sono, dificuldades de aprendizagem e dificuldades relacionais, que se manifestam de forma isolada ou em conjunto.

Quando não diagnosticada e tratada atempada e adequadamente, para além do impacto imediato no desempenho escolar e funcionamento psicossocial, há ainda um significativo maior risco de acidentes, de evolução para comportamentos de risco (consumo de drogas, comportamentos sexuais de risco, criminalidade), insucesso profissional e problemas relacionais com amigos, familiares e parceiros afetivos.

Qual o tratamento?

A intervenção deve ser multidimensional (com foco no indivíduo e nos vários contextos em que está inserido) e frequentemente multimodal (conjugando vários tipos de intervenção – médica, psicologia, treino parental, terapia ocupacional, terapia da fala, psicomotricidade, psicopedagógica) desenhada à medida de cada situação.

Genericamente, com a criança/jovem e a sua família, engloba uma intervenção psicoeducativa e psicoterapêutica para que todos melhor compreendam as características da PHDA e o seu impacto, mas também para que aprendam a gerar estratégias de autorregulação, de gestão emocional e de comportamento, assim como outras competências específicas de acordo com os problemas identificados. Na escola poderão ser necessárias medidas educativas ou comportamentais.

A intervenção medicamentosa está indicada sobretudo a partir da idade escolar. É segura e muito eficaz na redução dos sintomas, melhora significativamente o prognóstico e a qualidade de vida da criança/jovem e de todos que a rodeiam, embora não seja curativa.

Uma abordagem não farmacológica isolada da PHDA está recomendada em crianças pré-escolares ou em situações mais ligeiras e com impacto reduzido. O uso de suplementos alimentares à base de ómegas tem um efeito modesto, podendo ser utilizado também nestas circunstância ou associado à medicação. Não é comprovado o efeito de alterações na alimentação.

Em conclusão

Gosto de pensar que é positivo que se fale cada vez mais de PHDA, sobretudo acreditando que isso pode contribuir para um maior alerta, conhecimento e sensibilização para este quadro clínico tão frequente e com um impacto tão importante e que isso se converta numa procura de ajuda especializada o mais precocemente possível.

Na realidade, nem sempre isso acontece e são inúmeras as crianças e jovens com PHDA que aparecem com insucesso acumulado, desmotivados e com baixa autoestima acompanhados de pais exaustos, culpabilizados e confusos, cheios de falsas convicções ou a realizar intervenções inadequadas que em nada ajudam a diminuir os seus problemas, receios e angústias.

A qualidade das relações intrafamiliares e um bom suporte social constituem uma mais-valia para estas crianças e jovens, sendo importante que haja tempo para a brincadeira, para relaxar, para reforçar laços e afetos, não descurando igualmente a implementação de regras e limites consistentes, fundamentais para que cresçam e vivam de forma saudável e segura. Contudo, falando de PHDA importa distinguir e reconhecer sintomas e intervir atempada e corretamente.

Teresa Cartaxo (Médica Pedopsiquiatra)

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