É a doença neurodegenerativa mais frequente, a principal causa de demência em todo o mundo e a responsável pelo maior número de anos perdidos por incapacidade, (mais do que os AVC’s). 21 de setembro, é dia de lembrar a Memória e o Museu Nacional Machado de Castro tem sido pioneiro nesse caminho de promoção da saúde mental

Isabel Santana, Médica Neurologista, destaca a grande evolução que temos vindo a assistir no conhecimento e “diagnóstico precoce, e isso é positivo, mas precisamos de tratamentos mais eficazes que evitem a progressão ou, idealmente, previnam a Doença de Alzheimer”. Ainda há muito para conhecer e esse vazio não tem sido preenchido com o desenvolvimento de novas terapias, apesar de terem sido realizados mais de 4 centenas de ensaios clínicos. “Há mais de 17 anos que não surge um medicamento novo para a Doença de Alzheimer. A FDA aprovou recentemente uma nova terapia, mas a congénere europeia (EMA) ainda não se pronunciou sobre a sua utilização”.

A neurologista, que tem dedicado toda sua vida profissional à demência e, especificamente à Doença de Alzheimer, admite que este novo medicamento aprovada nos EUA não será o «milagre» esperado. “É um medicamento hospitalar e só por isso com constrangimentos de administração e acesso. Mais importante, foi  o reconhecimento por parte desta agência do medicamento de que a Doença de Alzheimer deve incorporar o grupo de doenças graves e com necessidades de tratamento não satisfeitas, como o cancro, o que abre caminho à investigação e aprovação mais célere de outros fármacos”.

A ciência ainda tem aqui um longo caminho a percorrer e os passos que tem dado não têm sido tão céleres, quanto o caminho da disseminação da doença. “Não só pelo envelhecimento progressivo da população, a atingir uma maior esperança média de vida, mas também pelo diagnóstico ser cada vez mais precoce», a Doença de Alzheimer tem vindo a progredir quase a galope. “Esta é a doença neurodegenerativa mais frequente no mundo, afeta hoje mais de 30 milhões de pessoas. É muito incapacitante, porque afeta as capacidades mentais e funcionalidade, ou seja, causa dependência, sendo que a demência é a primeira responsável pelo maior número de anos vividos (e perdidos) com grande incapacidade, mais do que os AVC’s”, acrescenta. Este é também um longo caminho para os cuidadores e familiares, que muitas vezes não encontram os apoios e solidariedade que merecem. E se é importante fazermos um diagnóstico precoce, é bom ter presente que, depois, toda a grande carga de cuidados, fica quase exclusivamente do lado do cuidador da pessoa com demência

As regiões e as cidades deviam preparar-se para serem “mais amigas” desta grande fatia da população da população idosa, incluindo muitos cidadãos com doenças crónicas e, eventualmente, deficiência mental ou física. Sendo a região Centro uma das regiões do país mais envelhecidas, tem a responsabilidade de incentivar e financiar programas que estimulem um envelhecimento saudável, prevenindo a demência e promovendo a sua inclusão social. O Ageing@Coimbra e outros programas nacionais congéneres, recentemente incorporados numa mesma rede nacional, trabalham neste âmbito, mas deverão ser alavancados com apoios e a colaboração de todos os cidadãos.

“Coimbra, pelo elevado nível das suas instituições académicas e de saúde, tem todas as condições para integrar uma rede de «cidades amigas dos cidadãos com demência», mas isso ainda não aconteceu, «é necessário envolvimento».

Um Museu que se envolve

O Museu Nacional Machado de Castro tem demonstrado esse interesse e envolvimento. Há 10 anos que o faz com o programa EU no musEU é um projeto pioneiro em Portugal criado pelo Museu Nacional de Machado de Castro de Coimbra em 2011 e já replicado em Viseu pelo Museu Nacional Grão Vasco e pelo Museu da Misericórdia, em parceria com a Alzheimer Portugal. O pograma destina-se a pessoas com défice cognitivo e demência e aos seus cuidadores (sessões simultâneas). Servindo-se de metodologias de estimulação cognitiva que têm a obra de arte como meio de comunicação da matriz cultural e pessoal, tem como objetivo último promover a saúde mental e o enriquecimento cultural destas pessoas e assim contribuir para um envelhecimento mais saudável.

Ao longo destes 10 anos, são os cuidadores que acabam por demonstrar o valor e a importância que este tipo de iniciativas pode ter, em quem convive de perto com a Doença de Alzheimer. “ Os cuidadores mantêm-se fiéis e continuam a vir ao Museu, mesmo quando os seus doentes já não podem participar ou partiram, criando grupos e laços, tão só porque o Alzheimer os juntou. Por norma, o cuidador é uma pessoa isolada e sem apoios”. EU no musEU é apenas uma porta que se abre, seja mensalmente, seja especialmente no dia 21 de setembro. É preciso que se abram muitas outras portas.

Amanhã, não será diferente. E depois da experiência online e virtual que a pandemia provocou em 2020, as portas do Museu Nacional Machado de Castro voltam a abrir para receber este programa, com visitas físicas e presenciais.

A Visita da Memória está marcada para dia 21 de setembro, às 11h00, e continua a ser uma iniciativa do Museu Nacional de Machado de Castro, em parceria com a Alzheimer Portugal.

Projeto inovador em Portugal, já replicado em Viseu, desde 2018, numa equipa formada pelo Museu Nacional Grão Vasco e pelo Museu da Misericórdia, o EU no musEU é referido como boa prática em manuais de associações culturais e em relatórios governamentais de direitos humanos, tendo sido distinguido com diversos prémios nas áreas da acessibilidade intelectual e social e do envelhecimento.

Deixar um Comentário