Ver não é mais uma função exclusiva do olho, porque hoje, em tempo real, ver é a construção de imagens no cérebro que podem ou não passar pelo olho humano. Sobretudo hoje, mudou a velocidade e a escala a que tudo acontece

Vivemos tempos extraordinários. Eu sei, em pleno verão de 2023, parece impossível começar um texto assim, mas permitam-me a ousadia, afinal, estou a poucos dias – quem sabe horas – de ser pai pela primeira vez. Espero, no entanto, que este tom animado se possa propagar para quem me lê. Nestes momentos é comum passarmos em revista a nossa vida, e muitas vezes, só assim, conseguimos entender o quanto as coisas mudam entre dois pontos muito afastados no tempo.

Recordo-me de, há poucos meses, numa conversa com um amigo, estarmos a comentar sobre carros, coisas de amigos, e de ele me dizer: “algum dia estás a conduzir um”. Respondi-lhe, “seguramente que sim, só não sei se porque a medicina me põe a ver, ou a indústria automóvel põe o carro a ver”. Quase de imediato me lembrei de uma frase de um oftalmologista que tinha em criança, que de forma bem contundente me dizia: “o Tiago não vai ver bem, nem que viva 20 gerações”. Bom, por agora ele está certo, mas também ainda não acabou o prazo que deu… Mas aproveitemos estas duas memórias para visitar esse passado, não tão antigo e conclui, que esse doutor poderá estar equivocadamente certo.

Há 20 anos, a falta de visão era extraordinariamente penalizadora, não olhar bem, implicava efetivamente, não ver bem. Não sou um cientista, tão pouco um clínico, não faço ideia se acabei de atropelar a ciência com esta afirmação, mas diria que, uma das lições que a vida me trouxe foi essa, olhar e ver não são a mesma coisa – podemos olhar sem ver grande coisa, da mesma forma podemos não olhar grande coisa e ver bastante. 

Há 20 anos era difícil brincar, os jogos, os brinquedos e os livros não permitiam olhar e ver em simultâneo, ou seja, a acessibilidade aos seus funcionamentos não acontecia em tempo real ou de forma independente. Na escola o ano mal começava em setembro, já que os livros, ampliados ou em braile tinham de ser produzidos e, com sorte, chegavam lá para março. Os computadores quando existiam precisavam de pelo menos três mãos, uma para o rato, uma para o teclado e outra para segurar a lupa para tentar ler o ecrã. Claro, se existisse algum dinheiro disponível podia adquirir-se algum hardware e software de leitura de ecrã, mas as suas limitações eram muitas vezes maiores que as nossas. Os transportes públicos, os ATM, a sinalização e os telemóveis não falavam connosco, e de smart tinham pouco. Nesses tempos, os das enciclopédias em papel e dos telejornais pequenos, de vez em quando víamos uma notícia, um pedacinho de esperança, que pontualmente nos fazia acreditar, que o privilégio da visão dita normal, um dia chegaria a pessoas como eu.

Passados 20 anos, tudo mudou, como se na verdade tivessem passado cinco ou até mais décadas. A tecnologia, a investigação científica e a prática médica avançaram, e hoje, o acesso a ferramentas que minoram o problema da baixa acuidade visual é tal, que realmente se pode falar de um desfasamento entre o conceito de olhar e o de ver, sendo que este último é muito mais uma função da capacidade e criatividade, para complementar a função visual com as ferramentas que a permitem dispensar ou tornar acessória. Ver não é mais uma função exclusiva do olho, porque hoje, em tempo real, ver é a construção de imagens no cérebro que podem ou não passar pelo olho humano. 

Sobretudo hoje, mudou a velocidade e a escala a que tudo acontece. As redes de comunicação, a inteligência artificial, a automação e a capacidade de reter dados, transportam-nos para uma fase de abundância e velocidade nunca antes vistas, à boleia de duas simples leis, às quais, ainda não se deu a devida atenção, a Lei de Metcalfe e a Lei de Reed.

Voltando à primeira ideia, a da condução do carro, e até ao título deste artigo, o que verdadeiramente quero dizer é que, não sei se será uma solução saída de um laboratório a regenerar tecidos, órgãos ou células, se uma tecnológica a recriar na totalidade a função visual, ou uma gigante das telecomunicações a criar um sistema operativo que nos guie através de ruas e lugares inteligentes, substituindo olhos por gestos e câmaras que nos tragam toda a informação, se será a IA a rodar milhares de dados e imagens, apresentando ao homem novas pistas, ou mesmo se alguém, para já, apenas “cure” a visão dos carros… ou qualquer outra coisa que ainda não se imagina a chegar a uma resposta, a mais uma resposta. O que me parece claro é que apostar contra tanta gente a tentar tanta coisa é no mínimo profundamente arriscado e, no máximo, retira-nos a maior das ferramentas criadoras: o sonho. A visão hoje é um processo de complexa abundância, assim hoje, mais do que olhar, consigamos ver. 

Tiago Matos
(Gestor Empresarial)

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