Há um novo despertar. Elas também morrem do coração. Pior, Elas morrem mais que Eles. É o reverso da medalha de quem é mulher no século XXI. O ritmo de vida está a afetar o ritmo cardíaco. Sugere-se mudar de vida. Todos dos dias o coração de 60 mulheres portuguesas para de bater. Estas mortes não chocam?

Os poetas chegaram a desgastar o tema, mas a comunidade médica nem sempre lhe deu o necessário relevo. Hoje, é aceite que as doenças cardiovasculares não causam sofrimento e morte apenas no género masculino. Elas também morrem do coração. Quase sempre sem dor, porque no género feminino o ataque cardíaco nem sempre vem acompanhado de dor ou pressão no peito. A dor não é a mesma, os sintomas são diferentes e as terapias não podem ser idênticas.

O coração não é igual. Há diferenças na anatomia da circulação coronária, na forma como as substâncias se depositam e acumulam na camada interna da parede arterial, na microcirculação coronária, nos comportamentos de desenvolvimento da doença arterial e nos resultados possíveis de obter com os vários procedimentos. A partir dos 55 anos de idade as doenças cardiovasculares são a principal causa de mortalidade nas mulheres, ultrapassando qualquer outra patologia, nomeadamente a do cancro. Na mulher, a doença coronária tem particularidades clínicas, diagnósticas, terapêuticas e de prognóstico. A tomada de consciência destes fatores é ainda claramente insuficiente. A prevenção não é antecipada e o tratamento precoce e agressivo dos fatores de risco é diminuto e insuficiente, mas a abordagem nos serviços de urgência também é menos intensa e agressiva. Não estamos preparados para que elas também sofram do coração.

Se é verdade que as doenças cardiovasculares são a principal causa de morte entre os adultos e em sociedades ocidentais, também é verdade que, no homem, a forma mais comum de manifestação da doença é o enfarte agudo do miocárdio. Na mulher a doença coronária apresenta-se mais frequentemente na forma de angina de peito estável, há uma dificuldade que impede a normal oxigenação do coração. Mas, também aqui, a angina de peito assume um carácter diferente. A duração prolongada da dor, a irradiação para o pescoço e o facto de a dor torácica isquémica, provocada pela suspensão do sangue numa determinada zona, ser menos esperada nas mulheres do que nos homens, leva a que as queixas delas nem sempre sejam valorizadas.

Para uns e outros os riscos são os mesmos, mas devem-se acrescentar outros, que ajudam a proporcionar uma atenção diferenciada para Elas. Incluem-se os baixos níveis de estrogénio após a menopausa, mas também a depressão, a síndrome metabólica (que combina gordura, com tensão arterial alta, açúcar e triglicerídeos elevados) e o hábito de fumar, com efeitos mais agressivos no coração nas mulheres. Tudo fatores de risco para o ser humano, mas potencialmente mais agressivos para as mulheres, pelas diferenças.

Em 2011, mais de 22 mil mulheres portuguesas morreram por doença coronária. Num só dia, o coração de 60 mulheres portuguesas parou de bater. Diariamente, 49 homens tombam pela mesma razão. São quase todas mortes inesperadas e que, na sua maioria, poderiam ter sido evitadas. As estatísticas dizem-nos que as doenças do coração matam 100 portugueses/as por dia. E se hoje morrerem cem pessoas num acidente ferroviário? Seria notícia. Ficaria chocado. Seriam mortes inesperadas, que poderiam ter sido evitadas. As doenças coronárias fazem o mesmo todos os dias. Estas mortes não chocam? O impacto não é o mesmo?

Sugere-se mudar de vida. Nove em cada dez ataques cardíacos podem ser evitados.

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