Não confundir vertigens com tonturas, porque não são bem a mesma coisa. É por aqui que deve começar o caminho que pode levar a um diagnóstico de síndrome vertiginosa. O sofrimento do ouvido interno e a desarmonia que surge nos labirintos é a causa desta alteração

“Tenho síndrome vertiginosa”… Esta é uma afirmação cada vez mais comum quando o médico otorrinolaringologista (ORL) pergunta ao doente porque vem à sua consulta. Efetivamente, esta expressão quer dizer tudo, mas também não esclarece grande coisa.

Comecemos por algo, aparentemente, simples. O que é uma vertigem? Do ponto de vista médico, “vertigem é uma sensação errónea de movimento no espaço ou do espaço em relação ao corpo”. De uma forma mais prosaica e como dizem alguns doentes, “parece que estou ébrio, sem ter bebido álcool”… Atenção. Vertigem e tontura não são bem a mesma coisa.

Uma tontura pode surgir, quando há uma mudança brusca de posição, por exemplo, quando passamos da posição de cócoras para posição erecta e sentimos a cabeça como que a andar à roda… De um modo esquemático, podemos dividir as vertigens em centrais (o problema está no Sistema Nervoso Central – Cérebro, Cerebelo, Tronco Encefálico) e em vertigens periféricas onde, de uma forma mais ou menos marcada, o labirinto, também designado de ouvido interno, está em sofrimento. Esta é pois uma situação que pode necessitar de um estudo multidisciplinar, mas onde o médico otorrinolaringologista será essencial.

Em termos anatómicos e fisiológicos, o labirinto (imagem) apresenta um “continente” ósseo e um “conteúdo” membranoso. O espaço entre ambos é preenchido por um líquido denominado perilinfa e, no interior do labirinto membranoso, existe um líquido diferente, a endolinfa, para além de células nervosas dotadas de cílios (uma espécie de pelos à superfície) e cristais de cálcio, os tais que muitas vezes os doentes, já bem informados, vão dizendo “estarem deslocados”. Quando olhamos para a imagem acima, vemos que a parte anterior do labirinto (à direita) tem a forma de um caracol – é a cóclea e está diferenciada no sentido da audição, e uma parte posterior, o vestíbulo, que apresenta duas pequenas dilatações, o sáculo e o utrículo, relacionadas com os movimentos lineares/acelerações e, mais posteriormente, três canais semicirculares, relacionados com os movimentos angulares/rotações.

Para que tudo funcione em harmonia, é necessário que os dois labirintos (direito e esquerdo) funcionem adequadamente, cobrindo os três planos do espaço do mundo tridimensional em que vivemos. Mas também os recetores visuais, dos músculos e das articulações têm de funcionar corretamente, senão podemos ter uma vertigem, com falta de equilíbrio e, nos casos mais exuberantes, náuseas e, até, vómitos.

Como diagnosticar então o problema que origina a vertigem? Ouvir o doente é fundamental. Como apareceu a vertigem, qual a sua intensidade, frequência, posição da cabeça que a possa desencadear, sintomas neurovegetativos que a possam acompanhar…

A descrição das queixas é indispensável para orientar o exame clínico ORL e não só, porque também alertam o médico para a necessidade de, eventualmente, pedir exames auxiliares de diagnóstico (da audição, do equilíbrio ou da visão – porque existe a possibilidade de o doente apresentar movimentos oculares involuntários, em salvas).

 

De uma forma resumida podemos estar perante:

1. Uma vertigem única, diminuindo de intensidade à medida que passam os dias;

2. Grandes crises vertiginosas acompanhadas, simultaneamente, de diminuição da audição e/ou zumbidos, unilaterais (a famosa e eufónica Doença de Ménière, por exemplo);

3. Vertigens desencadeadas, exclusivamente, pelas mudanças de posição (aquelas que costumam estar relacionadas com os cristais fora do sítio…);

4. Instabilidade isolada, com ausência de verdadeira crise de vertigem.

 

Feito o estudo e elaborado um diagnóstico, poderemos passar ao tratamento, que é sobretudo médico. Só em casos raros, quando existe uma lesão que é necessário retirar ou quando o tratamento médico se revela ineficaz e as queixas se tornam incapacitantes, é que se recorre a tratamento cirúrgico.

Curiosamente é no primeiro quartel do século passado (1921) que encontramos a primeira descrição de uma operação para o tratamento da vertigem,“Chirurgie du Sac Endolymphatique”, por Georges Portmann, oriundo da Savoie/França, o que demonstra que esta patologia sempre esteve na primeira linha das preocupações, diagnósticas e terapêuticas, da otorrinolaringologia.

Hoje, o tratamento médico mantém a primazia em relação ao tratamento cirúrgico, mas os progressos, em ambos os campos, têm sido significativos. Ao tratamento médico e para além dos progressos farmacológicos, com o aparecimento de novas moléculas mais eficazes, vimos surgir a associação de exercícios posturais dirigidos à estrutura anatómica labiríntica afetada e até, em casos específicos, combinados com a denominada reabilitação vestibular.

 

Jorge Miguéis

(Médico Otorrinolaringologista)

 

 

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