A futurologia não nos está no sangue, não somos especialistas em fazer previsões e nem a conjugação dos astros iluminou os mais certeiros videntes. O mundo mudou e nós ficámos à janela. Não podíamos ir mais longe


A física quântica já nos ensinou que o “aqui” e “agora” não existem e que são as partículas que têm vida. Não quisemos perceber bem esta transcendência do espaço e do tempo, porque confiámos que a Inteligência Artificial (IA) iria resolver tudo o que espera resposta ou destreza. Confiávamos tanto na IA que até começámos a dar-lhe um corpo jurídico, legalizando a sua existência e necessidade. Investimos e começámos a olhar para o novo mundo dos algoritmos, que nos levaria ao machine learning


Depositámos toda a esperança na IA e esquecemos de onde viemos. Naquele momento, pareceu-nos uma boa aposta. O data mining demonstrava que existiam padrões e sequências que nos permitiriam saltar na evolução da espécie e os algoritmos começavam a provar que alguém poderia decidir por nós. As incertezas, as dúvidas e hesitações, tão típicas da espécie humana, começavam a ficar simplificadas ou à beira de serem clarificadas por outros.


Tudo corria bem. A sociedade sonhava com um mundo tecnologicamente desenvolvido e as falhas, porque as havia, haveriam de ser suplantadas com a criação de super antivírus, porque o “lado negro” da web também existia e a segurança passou a chamar-se cibersegurança.


Foi no meio de todo este pulsar tecnológico que alguém nos lembrou quem somos. De repente e sem qualquer previsão, milhões de habitantes deste mesmo planeta viveram uma experiência única e em simultâneo: o isolamento. Será difícil conjugar todos os astros para que tal experiência se repita no tempo e no espaço, envolvendo tão elevado número de partículas (pessoas). As consequências ou os resultados de tão vasta experiência ainda não estão relatados, mas já todos perceberam quem ganhou este jogo da biodiversidade:


Humanos: 0; Vírus: 1;

Vamos continuar o jogo?


António Travassos
(Médico, Oftalmologista)

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