É a perseguição pela perfeição que leva qualquer cirurgião a querer treinar anos a fio os passos técnicos exigentes que o doente merece. Na Oftalmologia, os anos de prática e os milhares de intervenções cirúrgicas necessárias para a formação de um bom médico contam agora com a ajuda de uma nova tecnologia. Um simulador de cirurgia de catarata, retina e vítreo chegou ao Centro Cirúrgico de Coimbra, é o primeiro em toda a Península Ibérica

Nas cirurgias de Oftalmologia entramos na dimensão micra (a milésima parte de um milímetro). É território da microcirurgia, o que obriga a um grande controlo do gesto fino, articulado com a manipulação do microscópio. É exigível uma elevada coordenação motora (pés e mãos) e muitas horas de treino. A cirurgia virtual abre agora uma nova porta. Os milhares de intervenções cirúrgicas que são necessários para formar um bom cirurgião podem ser substituídos por um simulador. O ambiente é virtual, mas o cenário é real e autêntico. A única diferença reside na ausência de risco para o doente que, neste caso, é substituído por uma aplicação tecnológica.

Há algumas décadas que os simuladores são utilizados no treino intensivo de outras profissões, permitindo diminuir custos na formação, condensar anos de experiência em algumas semanas de uso de simulador e até testar cenários limite, levando ao extremo as condições da prática de determinada atividade, sem colocar em risco vidas humanas ou bens materiais.

Em Medicina, o conhecimento das técnicas cirúrgicas tem sido construído com a sucessão de observação de cirurgiões experientes, uma vez que foi excluída a experimentação em cadáver. Contudo, o aperfeiçoamento dos gestos técnicos cirúrgicos é um processo moroso. Em concreto, a Oftalmologia é uma especialidade médico-cirúrgica com uma elevada componente técnica e científica. Os gestos são observados por visualização de microscópio e exigem elevada concentração e técnica. São necessários anos e milhares de intervenções cirúrgicas para formar um cirurgião de vítreo e retina experiente.

O simulador que o Centro Cirúrgico de Coimbra adquiriu é um avanço tecnológico tremendo, em particular para o treino da cirurgia de catarata e vítreo-retiniana, para formar novos e cada vez melhores cirurgiões.

O sistema de simulação de cirurgia permite simular o funcionamento do microscópio cirúrgico, do sistema de visualização indireta da retina, do aparelho de vitrectomia ou de facoemulsificação, ou seja, dos instrumentos cirúrgicos usados neste tipo de cirurgia, mas também qual a interação que estes podem ter com os tecidos oftalmológicos. Com as condições e exigências de um bloco operatório, o simulador permite que, em tempo real, seja possível treinar aptidões básicas, mas que são necessárias apreender para ter a destreza necessária na micromanipulação dos tecidos e para realizar as exigentes intervenções cirúrgicas. Tudo de forma simulada. É ainda possível ir graduando o grau de dificuldade que se pretende enfrentar e que pode ser adequado às aptidões que o cirurgião em formação apresenta naquele momento.

Os cirurgiões experientes também podem beneficiar com esta nova tecnologia, uma vez que o simulador permite executar repetidamente e sem risco para a saúde do doente os gestos técnicos mais complexos, que poderão ser necessários em casos clínicos de coeficiente de dificuldade elevado, além de também ser possível ensaiar novas manobras ou técnicas cirúrgicas.

«Os melhores não nascem com essa característica escrita no mapa genético. Os melhores treinam horas a fio, reveem as técnicas, insistem em voltar a fazer, executam gestos repetidamente e, principalmente, não desistem de querer ser os melhores». António Travassos, cirurgião oftalmologista, explica que esta é a oferta que faz «à nova geração, que tem todas as condições para ter os melhores, só não pode desistir. O simulador de cirurgia de retina e vítreo irá ajudar a formar os melhores cirurgiões de Oftalmologia».

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