Provavelmente incomodam-lhe mais as “dores nas costas”, a “perda de visão” ou “estar a ouvir pior”, do que saber que tem a tensão arterial mal controlada, o colesterol elevado ou excesso de peso. Tudo fatores de risco para as doenças cardiovasculares. Ao AVC e enfarte do miocárdio, junte-lhes a demência, entre outras consequências…

As doenças cardiovasculares, como o enfarte agudo do miocárdio (EAM) ou o acidente vascular cerebral (AVC), são a principal causa de morte e incapacidade em Portugal. É de conhecimento geral que os fatores de risco para a aterosclerose, que levam a estas consequências graves, incluem o tabagismo, o colesterol elevado, a obesidade, a hipertensão arterial, a diabetes, o sedentarismo e a alimentação não-saudável.

Acrescente-se que dados recentes revelaram que os números de casos de demência, uma situação clínica com consequências devastadoras para o doente e sua família, podem triplicar até 2050. Se uma das razões para tal acontecer é o envelhecimento da população, também sabemos que a demência vascular tem como causas principais os mesmos fatores de risco identificados para as doenças cardiovasculares. 

Na relação entre demência e doença cardiovascular, o mecanismo de causa/efeito pode implicar a rede vascular cerebral, a perda de integridade vascular, pequenos acidentes vasculares cerebrais ou hipoperfusões (baixa irrigação). Não serão já motivos suficientes para considerar importante deixar de fumar, melhorar a sua alimentação ou aumentar a sua atividade física? 

Se estas doenças maioritariamente causadas pelo estilo de vida têm consequências tão graves, por que razão não existe na população uma maior preocupação para o seu controlo? Essencialmente porque são “silenciosas”.

Se ninguém se esquece que passou o dia com dores nas articulações, que tem insónias ou problemas auditivos, uma pessoa com uma tensão arterial descontrolada pode estar completamente assintomática e assim desvalorizar o risco que está a correr. É por isso importante sensibilizar todos para a importância da promoção de um estilo de vida saudável! Saúde pública não é “apenas” o controlo do contágio de vírus, é também evitar esta pandemia cardiovascular!

Com medidas muito simples, é possível inverter esta tendência. Redução do consumo de sal, de gorduras e de carnes vermelhas. Aumento do consumo de fruta e de vegetais. Redução do consumo de bebidas alcoólicas, deixar completamente de fumar. Atividade física regular semanal de pelo menos 150 a 300 minutos de exercício moderado ou de 75 a 150 minutos de exercício intenso. 

É também com pormenores do dia-a-dia que podemos fazer a diferença: se para ir para sua casa necessita de elevador, por que não utilizar as escadas, mesmo que demore mais tempo? E porque não estacionar um pouco mais longe do local de destino? Todos os pretextos são válidos para evitar problemas graves no futuro, com o “bónus” de também se sentir muito melhor no presente!

Luís Leite
(Médico, Cardiologista)

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