Se até o seu carro vai à inspeção e à revisão, porque não levar o corpo a um programa de manutenção da saúde? O check-up médico serve para isso mesmo e deve ser feito em qualquer idade

A ideia de vigilância ativa da própria saúde, com o objetivo de avaliar o risco e deteção precoce de eventuais doenças, visando a sua eventual cura ou início de tratamento atempado, é o que está subjacente à resolução de realizar um check-up médico. Ou seja, pretende-se garantir a manutenção de saúde.

A planificação da periodicidade de reavaliação depende se o indivíduo em estudo tem ou não fatores de risco específicos. A realização de um check-up também deve ser um momento para estimular a adoção de um estilo de vida saudável (fazer uma alimentação equilibrada com consumo moderado de álcool, prática de exercício físico regular, manutenção do peso adequado e abandono de hábitos nocivos como o fumar ou outros).

Pretende-se assim fazer uma avaliação do estado de saúde de uma pessoa, num determinado momento, bem como o rastreio de certas doenças e a avaliação de fatores de risco. O método seguido parte de uma avaliação clínica geral e de outras consultas, dirigidas a determinadas patologias mais prevalentes em certos escalões etários e em função do sexo. A avaliação clínica global é complementada com exames auxiliares de diagnóstico, para obter uma panorâmica do estado de saúde do indivíduo e adequada identificação de possíveis estados patológicos desconhecidos, com o objetivo de minimizar a sua ocorrência e impacto.

Quem deve fazer um check-up?

A avaliação clínica global e a realização de certas análises e determinados exames auxiliares de diagnóstico estão indicadas em qualquer idade. Homens e mulheres saudáveis devem ter uma vigilância médica regular, com realização de exames, adaptados aos fatores de risco familiar e pessoal, à idade e perfil individual. O conhecimento de uma dislipidemia familiar ou a simples deteção de um excesso de peso podem ser determinantes nas condições de saúde a médio e longo prazo. A instituição precoce de rastreios está ainda indicada em jovens com certas neoplasias e outras doenças na família, sem qualquer tipo de sinal de doença.

Quando fazer?

A vigilância é a melhor forma de detetar uma anomalia que poderá identificar um problema de saúde assintomático como, por exemplo, a hipertensão arterial ou um nódulo mamário. A periodicidade com que se deve fazer um check-up varia consoante o sexo e a idade, havendo protocolos de rastreio já bem estabelecidos, nomeadamente relativos à saúde da mulher a partir dos 35 anos, com a realização de mamografias e ecografias mamárias, bem como o rastreio de neoplasia prostática nos homens a partir dos 50 anos. Idealmente, os adolescentes também devem ter um acompanhamento médico regular, mesmo sendo saudáveis, com particular atenção ao início da vida sexual. Há no entanto muitos adultos jovens que não tiveram qualquer tipo de cuidados nos últimos anos, pelo que está indicado fazer um check-up, com um plano adequado a cada situação.

E ao longo da vida adulta…

No início da idade adulta é aconselhável fazer uma consulta de avaliação geral, com avaliação genital e realização dos exames auxiliares de diagnóstico que o médico entenda convenientes, condicionados pela história individual e familiar, com particular atenção a possíveis doenças familiares ou de transmissão genética.

A determinação do índice de massa corporal, da tensão arterial, dos níveis de glicémia e colesterol e estado cardiopulmonar são mandatórios. Uma atenção particular deverá ser dada ao status vacinal e risco de doenças sexualmente transmissíveis. As mulheres devem fazer uma consulta de ginecologia, com citologia a cada 3 anos, de forma a detetar lesões pré malignas, devendo aos 35 anos realizar ultrassonografia das mamas e ecografia transvaginal e mamografia. Avaliações subsequentes deverão ser feitas periodicamente e de acordo com a necessidade identificada.

Aos 40 anos, mulheres e homens devem fazer uma consulta geral e diversas análises clínicas, bem como um eletrocardiograma, para além da necessidade dos rastreios oftalmológico e dermatológico.

Aos 50 anos deverá ser realizado um check-up geral com a realização de uma avaliação analítica global e diversos exames auxiliares de diagnóstico, que devem incluir, no caso dos homens, o PSA e exame da próstata com ecografia e eventual biopsia. É importante a realização de uma colonoscopia (a repetir cada 5 anos, se normal), tal como também é importante pesquisar eventuais problemas cardiorrespiratórios e osteoarticulares.

Avaliações oftalmológicas e auditivas são preconizadas. A partir dos 50 anos de idade está indicado que a avaliação global passe a ser feita anualmente, mesmo que não existam doenças identificadas.

Acrescente-se que a realização de densitometria óssea, para deteção de osteoporose, está indicada aos 60 – 65 anos na mulher e 70 no homem. No caso dos fumadores, além dos exames normalmente solicitados pode estar indicado fazer estudo funcional respiratório e marcadores tumorais.

Que avaliações?

A realização de uma consulta por um médico Internista será a forma ideal de iniciar um check-up. Na consulta deve ser recolhida uma história clínica detalhada, com a devida atenção aos antecedentes patológicos e à história familiar, o que pode levar à realização de exames complementares específicos. A avaliação da tensão arterial e do peso e a avaliação clínica global são indispensáveis.

A realização de análises de avaliação geral (hemograma com fórmula leucocitária e contagem de plaquetas), provas da função renal e hepática e tiroideia, perfil lipídico, análise sumária de urina análise das fezes, e avaliação dos níveis de vitaminas, são os dados a obter de forma sistemática. Pode estar indicada a realização de outras, de acordo com as patologias prévias ou os sintomas e sinais identificados na avaliação clínica.

Realizar-se-á um eletrocardiograma e restantes exames de avaliação cardiológica, se indicados (ecocardiograma, holter, prova de esforço). Um RX do tórax e outros exames imagiológicos serão prescritos de acordo com a idade e género (por exemplo, mamografia e ecografia mamária, ecografia prostática, etc).

A realização de outros exames Imagiológicos como Tomografias computorizadas ou Ressonâncias, serão prescritas se necessário. Consultas de Dermatologia, Ginecologia ou Urologia devem ser propostas para melhor caracterização da real situação do indivíduo, pela eventualidade de lesões cutâneas malignas ou pré-malignas, realização de citologia ginecológica, deteção de hiperplasia ou neoplasia da próstata. Eventualmente pode estar indicada a orientação para avaliação

Psiquiátrica e /ou Psicológica.

O que esperar?

Há quem questione o interesse de realizar exames de rotina a adultos saudáveis sem fatores de risco. Em adultos assintomáticos, a realização indiscriminada e sistemática de exames de rotina não demonstra que reduza a morbilidade nem a mortalidade e poderá até conduzir a situações não desejáveis de falsos positivos, que motivam uma cadeia de exames, geradores de ansiedade. A decisão de se fazerem os testes de rastreios deve ser ponderada e baseada em função da idade, sexo e fatores de risco de cada pessoa.

Após a realização de um check-up, a pessoa dispõe de uma visão abrangente da sua saúde e terá informação suficiente sobre o seu estado clínico, nomeadamente quanto à presença ou não de excesso de peso, hipertensão arterial, diabetes, dislipidemia, doença cardiovascular, doença respiratória, doenças dos rins, doenças osteoarticulares, osteoporose, ou neoplasias detetáveis à data da realização do mesmo.

A vantagem de recorrer a um plano de check–up organizado é conseguir, no menor espaço de tempo possível e com o maior conforto, efetuar todos os exames e consultas incluídos na avaliação preconizada, obtendo (no final) um relatório detalhado da situação clínica e do plano de investigações subsequentes a realizar. A eventual identificação de uma qualquer morbilidade requer o prosseguimento da investigação diagnóstica ou um seguimento regular.

Certificado de garantia?

Um check-up faz uma “fotografia “ ao estado clínico do indivíduo, permitindo detetar certas doenças não conhecidas previamente e avaliar situações patológicas já identificadas, podendo – a partir daí – ser ponderado um plano para minimizar riscos e programar reavaliações, mas nunca poderá ser encarado como um “certificado de garantia” de saúde. Assim, se surgir qualquer sintoma ou sinal de doença de novo, deve haver uma pronta reavaliação clínica, independentemente do espaço temporal relativo ao check-up. A noção de que a deteção precoce de uma doença permitirá o seu tratamento atempado e eventual cura, mesmo de situações muito graves, que na ausência de diagnóstico poderão ser causa de morte precoce, deve prevalecer e induzir o papel ativo de procurar cuidados de saúde de forma regular. Esta ideia corrobora o aforismo popular “ mais vale prevenir do que remediar”.

Deolinda Portelinha

(Médica, Medicina Interna)

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