São os biliões de células neuronais e as suas incontáveis conexões que nos permitem desenvolver e potenciar capacidades e competências. O processo começa com a carga genética que cada um recebe, mas nem tudo fica escrito nos genes. Há experiências, vivências e aprendizagens que fazem com que os neurónios se interliguem de um modo único e exclusivo. O ser humano irá depender sempre das estruturas neuronais e da plasticidade cerebral, mas na governação da vida pessoal e social adquire importância fundamental a ligação entre a razão e a maquinaria dos afetos

As neurociências têm contribuído para modificar as perspetivas de como olhamos para o nosso comportamento ou para as emoções que experimentamos, isto é, tem vindo a clarificar as funções e as capacidades do cérebro humano. E este é, sem dúvida, um caminho difícil, o de descodificar este órgão tão complexo, formado por biliões de células neuronais e de incontáveis conexões entre elas, que nos permitem potenciar e desenvolver capacidades e competências em cada um de nós, nas mais diferentes áreas do conhecimento, das artes, da engenharia, da inovação e nas demais funções operativas.

São estas mesmas estruturas neuronais que têm uma importância fundamental na gestão emocional, na sensibilidade, nas sensações decorrentes da interação social, nas várias manifestações da inteligência, sentido crítico e outras faculdades mentais.

Quando a criança é gerada, há informações inoculadas no respetivo ADN que vão, numa fase posterior, levar à diferenciação celular dos neurónios, com uma migração destes para os diferentes territórios e estruturas cerebrais. Com a idade, o amadurecimento das estruturas cerebrais gera um processo complexo que decorre até à vida adulta, em que a informação de tipo genético tem um papel moldador, bem como as experiências e vivências, dando ao cérebro a plasticidade própria de cada um de nós.

Ao longo da vida e com as aprendizagens do dia-a-dia, os neurónios vão-se organizando e interligando de modo único, explicando-se assim o que somos e o que fazemos ao longo da vida, bem como a ação terapêutica das técnicas psicológicas e as repercussões dos eventos traumáticos.

Alguns dirão que são os genes a determinar as nossas características pessoais e que o nosso destino está inscrito nos genes, mas não são negligenciáveis as influências decorrentes da interação com o meio ambiente, daí resultando uma expressão diferenciada da carga genética. Essa afetação da expressão diferenciada dos genes é um processo pouco conhecido e muitos cientistas procuram os seus fundamentos e a forma como os genes se regulam e trabalham. O conhecimento destas questões facilitará respostas quanto às causas das doenças e a sua terapêutica.

Na doença mental ainda estamos numa fase sindromática e são raros os casos em que se pode apontar uma patofisiologia, pelo que temos ainda um longo caminho até se saber, de forma homogénea, as causas das perturbações, mesmo que se conheçam já os circuitos anatómicos, químicos e funcionais em jogo.

As novas técnicas imagiológicas vão permitir detetar e descobrir como decorre todo este processo de neurodesenvolvimento, as alterações que decorrem com as experiências e os circuitos que se refazem com as emoções vividas.

As interações com o meio, com todos os fatores sociais a moldar não só a nossa forma de estar mas também a nossa biologia, leva-nos a pensar que a psicoterapia pode ajudar a atenuar os efeitos da agressão que o cérebro sofre em muitos eventos traumáticos. Mas essa terapêutica não será efetiva para todas as doenças, pelo que a utilização das terapias farmacológicas é a alternativa numa psiquiatria humanizada e destigmatizante.

A não utilização da farmacoterapia é um recuo para conceções medievais, é não introduzir na saúde mental os métodos do resto da medicina, é pensar que as doenças são produto de fraquezas ou erros educacionais, é desprezar o conhecimento científico atual. Mais grave é não utilizar as armas ao nosso dispor para minorar o sofrimento humano.

Temos que olhar o homem como um todo, pensar que a sua mente tem como base um cérebro e situá-lo no seu contexto social, económico, intelectual e emocional, olhar a pessoa e ajudá-la a sarar as maleitas que a possam atingir.

A condição humana transcende as conexões dos neurónios, as falsas dicotomias tais como: cérebro/ mente ou farmacoterapia/ psicoterapia. Temos de acrescentar o chamado bom senso e juízo crítico, porque atuamos como seres livres, com pensamentos e comportamentos (corretos ou errados), com o sentimento do eu e da nossa identidade que nos dá uma existência com ligações morais às outras pessoas.

A psiquiatria não pode perder de vista o viver com humanidade, com partilha da realidade e das emoções e contra a crueldade dos tempos anónimos e impessoais, sabendo, contudo, das suas limitações e exigindo a transformação do mal-estar social numa vivência rica de valores e calor emocional.

A verdade é que com o desenvolvimento e o progresso científico a avançar, as pessoas estão em conexão mas isoladas e de ouvidos tapados com os auscultadores do iphone, sem interação. A ciência e a tecnologia devem ser usadas para melhorar o nosso futuro, sabendo que a condição humana tem regras naturais de regulação da vida.

É sempre bom lembrar que a seleção natural foi aperfeiçoando os dispositivos biológicos, mas o ser humano vai depender sempre da ligação da razão à maquinaria dos afetos para governar a sua vida pessoal e social.

Reis Marques (Médico Psiquiatra)

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