Ceder a todas as vontades da criança favorece a ilusão de um mundo irreal. A criança acredita que pode fazer tudo e acaba por criar uma barreira perante a realidade. Se deixarmos que isto aconteça, falhamos uma das mais importantes aprendizagens da vida. Há uma autoridade que é preciso recuperar. O pai não é um “igual”, é um adulto que protege e que define regras

 O facto de os pais serem incapazes de dizer «não» aos seus filhos encobre frequentemente diferentes sentimentos. A culpabilidade pelo pouco tempo passado com os filhos pode levar à convicção de não os contrariar nos breve momentos que compartilham, mas os pais também podem sentir incapacidade de se lançarem numa prova de força, tal como também podem ter dúvidas da interdição ou ordem imposta ou, simplesmente, podem ter pressa, cedendo facilmente aos caprichos da criança para fugirem a uma situação de birra que pode durar eternidades. Por tudo isto, facilita-se, é mais fácil optar pelo “sim” e esquecer o poder do “não”.

Cada vez mais esquecido, ou posto de parte como valor educativo, é fundamental recordar aos pais a importância estruturante do «não» para o desenvolvimento emocional das crianças. A frustração é uma experiência indispensável ao desenvolvimento da criança. Permite-lhe renunciar à satisfação imediata de todos os seus desejos, o que se revela fundamental para o seu crescimento como um indivíduo responsável, independente e autónomo.

Ao ceder a todas as vontades da criança, favorece-se a ilusão de um mundo irreal, onde ela acredita que tudo pode fazer, criando uma barreira perante a realidade, que a torna incapaz de suportar as frustrações. Crescer, é assim renunciar momentaneamente a qualquer coisa, para poder fazer outra melhor mais tarde.

Perante um «pai companheiro», que se põe ao mesmo nível do filho, considerando-o como um igual, e sobre o qual por isso, não exerce qualquer tipo de autoridade, a criança fica sem um pai adulto que a proteja e que funcione como figura de identificação. Contrariamente ao que vulgarmente se acredita regras claras dão segurança à criança e não reprimem.

 Uma criança que aprende que os seus berros e birras lhe permitem atingir os seus objetivos, vê-se perante a angústia da ausência de limites face à sua omnipotência.

As crianças apercebem-se da sua incapacidade para se controlarem sozinhas e quando têm comportamentos provocatórios, estão apenas a reclamar uma reação dos pais. Quando são disciplinadas de uma forma firme, mas compreensiva, experimentam uma sensação de alívio, que as motivará a aprenderem a impor limites a si próprias. A ansiedade que lhes provoca o descontrole é-lhes desagradável, pelo que quando começam a perder o controlo procuram o rigor nos que estão à sua volta.

É fundamental que os pais recuperem a sua autoridade parental, assumindo sem culpabilizações o seu papel executivo (são os pais que definem as regras e os limites). Para isso têm de agir como reguladores e têm de manter relações verticais com os filhos. Os pais são os líderes e devem exercer o seu poder de forma firme, ainda que não autoritária. Este poder vai admitindo, ao longo do desenvolvimento das crianças, níveis crescentes de negociação, sem nunca se inverter ou ser suscetível de demissão. Nesta relação com os pais, as crianças fazem uma importante aprendizagem para a vida, que lhes desenvolve a capacidade de lidar com o poder desigual. Deste modo, o entendimento, a amizade, a boa comunicação entre pais e filhos não pode nunca ser sinónimo de falta de liderança, nem de exercício da autoridade.

Aos pais são exigidas duas importantes qualidades, em polos quase diametralmente opostos. Por um lado, devem mostrar-se como calorosos e amigáveis, cuidando das necessidades físicas e emocionais das crianças e revelando empatia relativamente aos estados emocionais dos filhos. Por outro, mostra-se imperioso que se revelem exigentes e firmes, fomentando a responsabilidade, a autonomia e o cumprimento de regras.

 Alexandra Pais

(psiquiatra da infância e da adolescência

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