Vai muito para lá da confirmação do diagnóstico. Hoje, a neuro imagiologia é uma peça fundamental quando se quer estudar o cérebro. A ressonância funcional e a imagem multimodal já vieram dar certezas a promissoras terapias que podem inverter a atrofia cerebral. Confirma-se que o exercício físico inverte o declínio cerebral. Está escrito nas imagens

De tempos a tempos, emergem novos conceitos no campo da imagiologia, resultantes da integração de um corpus de literatura investigacional cada vez mais vasto e não restrito unicamente à imagem, visando ampliar os limites da ciência, na sua capacidade de criar imagens que traduzam a anatomia e função dos órgãos do corpo, e assim poder responder às mais diversas questões clínicas e até filosóficas.

Entre estes “novos” conceitos surgiu nos últimos anos, devido à melhor capacidade discriminativa dos métodos modernos de imagem, a neurorradiologia preventiva, que assenta no racional da aplicação de técnicas multimodais de aquisição de imagem, na tentativa da deteção precoce, ainda em fase subclínica, de doenças cerebrais e a subsequente aplicação de medidas preventivas que atuem sobre fatores de risco modificáveis.

O impacto da neurorradiologia preventiva já se faz sentir em várias áreas, sendo sem dúvida uma das que desperta maior interesse, a do declínio cognitivo associado à idade. Tal não deve constituir surpresa alguma, atendendo às pirâmides etárias dos países ditos desenvolvidos e ao aumento da esperança média de vida.

São vários estudos publicados que investigaram a relação entre IMC (índice de massa corporal) e atrofia cerebral. Num dos primeiros estudos apreciaram-se as diferenças no volume de substância branca e substância cinzenta de 94 idosos, através de morfometria por ressonância magnética, verificando-se que, após devida normalização com eliminação de vieses atribuíveis à idade, sexo e raça, os indivíduos obesos (IMC superior a 30) apresentavam atrofia em áreas específicas dos hemisférios cerebrais, a saber, nos lobos frontais, porção anterior do giro do cíngulo, hipocampos e tálamos. Esse mesmo estudo demostrou também que os idosos com excesso de peso (IMC entre 25 e 30) exibiam atrofias preferenciais nos gânglios da base e nas coronas radiatas.

Outro estudo mais recente explorou a associação entre atividade física, IMC e volume cerebral de 963 indivíduos (adultos saudáveis, idosos, pessoas com défice cognitivo ligeiro (DCL) e Demência de Alzheimer (DA), estabelecendo, inequivocamente, que a atividade física se associava a maiores volumes cerebrais, portanto, a menor atrofia. A relação inversa verificou-se relativamente ao IMC, ficando demostrada uma associação entre IMC elevados e redução da volumetria cerebral.

Mas não só técnicas volumétricas de ressonância magnética são usadas neste campo. Para avaliar a integridade do tecido cerebral, técnicas avançadas de ressonância magnética, como o tensor de difusão, têm sido usadas para quantificar mudanças na estrutura e conectividade dos tratos que constituem a substância branca, provando-se associação entre danos nestes tratos e IMC elevado.

Terapias simples e inesperadas

Outra técnica avançada de ressonância magnética, a ressonância funcional, permitiu também explorar associação de alterações na ativação cerebral durante a cognição e obesidade, conseguindo-se provar num estudo que grandes circunferências abdominais se encontravam associadas a menores ativações cerebrais e lentificação na resposta para cumprir uma tarefa.

Da análise e interpretação de todos os estudos (dos quais apenas mencionei alguns a título de exemplo) que utilizam imagem multimodal para se debruçar sobre esta problemática (o declínio cognitivo), afloram algumas promissoras “terapias”, às vezes tão radicalmente simples, e por isso inesperadas, como a atividade física/exercício físico.

De facto, múltiplos estudos de neurorradiologia corroboram os benefícios do exercício físico na estrutura e função cerebral. Volumes mais elevados de substância branca e substância cinzenta estavam presentes na volumetria por ressonância magnética em indivíduos saudáveis e com declínio cognitivo com melhor fitness aeróbico. Também a volumetria por ressonância comprovou, em idosos saudáveis, que maiores volumes hipocampais estavam relacionados com melhor condição física, e consequente melhor performance em tarefas relacionadas com memória.

Volumes hipocâmpicos superiores foram sucessivamente associados a atividade física, conseguindo-se, inclusivamente, provar melhor performance da memória.

Surpreendentemente provou-se a reversão de até 2% da perda de volume hipocâmpico, relacionado com a idade em adultos de meia-idade (equivalente a um ou dois anos de redução da volumetria), com treinos (físicos) continuados.

Em antigos atletas que mantêm algum tipo de atividade física o condicionamento aeróbico foi correlacionado com menor número e volume de lesões microvasculares, traduzidas como hipersinais T2 na substância branca cerebral.

Envelhecimento saudável

Em resumo, a ressonância magnética, e em particular as técnicas avançadas, permitiram demostrar, inequivocamente, a associação de uma série de fatores de risco modificáveis, incluindo a obesidade (como explanado neste artigo), sedentarismo, Hipertensão Arterial, Diabetes Mellitus e Dislipidémia, com a redução da volumetria de áreas cerebrais, menores ativações perante tarefas relacionadas com memória e diminuição da integridade da substância branca. Paralelamente permitiram também provar a importância do exercício físico no envelhecimento saudável.

No futuro parece inegável que o papel da neurorradiologia se estenderá muito além do diagnóstico, assumindo um papel forte na prevenção. Se por um lado facilitará a investigação da superioridade de novas terapêuticas na preservação da função cerebral e prevenção do declínio cognitivo e neurodegeneração, por outro lado auxiliará na prevenção propriamente dita, permitindo um diagnóstico mais precoce dos indivíduos em processo de envelhecimento patológico.

A Neuroimagem preventiva trará um ganho considerável, com impacto económico e psicossocial, podendo permitir não só mais anos de vida como também a diminuição de anos de vida em situação de dependência.

César Nunes
(Médico, Neurorradiologista)

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