Há uma história de vida escrita na nossa coluna. As opções, as atitudes a gestão de posturas e os mecanismos compensatórios ficam inscritos numa qualquer coluna vertebral. A verticalidade tem um preço inestimável e tem uma caução que deverá ser paga logo à nascença e mantida por toda a existência do ser humano

Postura é definida como o estado de equilíbrio entre os músculos e os ossos, com capacidade para proteger as demais estruturas do corpo humano de traumatismos, seja na posição em pé, sentado ou deitado. E no caso humano, a postura tem sido objeto de estudos biomecânicos, uma vez que alterações estruturais e funcionais da atitude do corpo no espaço causam desequilíbrio no sistema corporal e levam à compensação, redução das suas funções e aumento do gasto energético para a manutenção de um determinado posicionamento. Estas alterações podem ocorrer ao longo de toda a vida e começar em qualquer idade.

Durante a puberdade, a coluna vertebral cresce mais rapidamente que os membros e os músculos e tendões nem sempre acompanham esse crescimento ósseo. O adolescente necessita de tempo para se acomodar ao seu novo corpo. Nessa fase de muita introspeção, sensibilidade e até vergonha do próprio corpo, observam-se frequentemente a postura encolhida, o andar desengonçado, certa descoordenação nos movimentos e posições viciosamente adotadas.

Na infância estes problemas tornam-se mais preocupantes, pois as crianças são mais suscetíveis às alterações posturais. Na faixa etária dos 7 aos 12 anos de idade, começam a surgir as adaptações funcionais, consequentes do desenvolvimento corporal, emocional e de atividades, podendo levar aos desvios da coluna vertebral, uma vez que a mobilidade se torna mais extrema e a postura se adapta às novas atividades desenvolvidas.

Na postura padrão, a coluna apresenta curvaturas normais e os ossos dos membros inferiores um alinhamento ideal para a sustentação de peso corporal. A posição neutra da pélvis conduz ao bom alinhamento do abdómen, do tronco e dos membros inferiores. O tórax e a coluna proximal, ficam numa posição que favorece a função ideal dos órgãos respiratórios. A cabeça mantém-se ereta numa posição bem equilibrada minimizando a sobrecarga da musculatura cervical. A postura envolve uma relação dinâmica e os elementos do corpo, principalmente os músculos esqueléticos, adaptam-se em resposta aos estímulos recebidos.

Vícios que deformam

Ao relacionar o ambiente escolar com a postura, percebemos que os problemas são diversos, como por exemplo: causas ergonómicas, como as encontradas no transporte do material escolar, arquitetura desfavorável do imóvel, disposição e proporções inadequadas do mobiliário, as quais, provavelmente, serão responsáveis pela manutenção, aquisição ou agravamento de hábitos posturais inapropriados.

O comportamento postural da criança durante os primeiros anos escolares é o grande responsável pelos vícios posturais adquiridos, tendo-se em consideração a evolução da postura ereta, as condições anatômicas da coluna vertebral e as relações da criança com o meio social em que vive.

Sempre que se instala uma curvatura anómala num segmento da coluna vertebral, os demais segmentos irão acentuar ou atenuar as suas curvaturas no sentido de compensar a deformidade, procurando manter o equilíbrio funcional.

Crianças com deformidades na coluna, dificilmente sentem dor. Por ser silencioso, na maioria das vezes, o problema só é detetado pelos pais ou professores quando se encontra em fase avançada da sua evolução. Neste período, os ossos e a própria musculatura encontram-se em formação.

A criança não deve suportar mais de 10% do seu peso corporal nas costas, sendo inúmeros os riscos para quem não respeitar os seus limites. Um deles é o vício postural que pode levar os jovens a ter uma postura arqueada para a frente ou para o lado. A falta de prevenção pode provocar deformidades graves e na idade adulta, entre os 30 e os 40 anos, poderão desenvolver-se alterações degenerativas, do tipo artrósico.

Carlos Jardim (médico ortopedista)

 

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