O ressonar não é apenas incomodativo, pode ser indicador de um problema de saúde e uma fonte de preocupação. Qualquer criança já teve episódios ocasionais em que ressonou durante a noite, mas para 10% a 15% esta é uma situação habitual.

Explicamos porque ressonam, o que acontece nesse período, as consequências e como tratar este ruído nocturno que pode provocar situações tão dispares como centenas de despertares nocturnos, atrasos de crescimento, obesidade ou alterações dos níveis de oxigénio na corrente sanguínea. Vamos ficar mais atentos?

Porque fazem tanto ruído?

O ressonar corresponde ao ruído produzido, durante o sono, pela vibração de ar de estruturas das vias aéreas superiores (amígdalas, adenóides, palato, úvula) umas contra as outras. Surge quando existe um aumento da resistência à passagem do ar no nariz e na área por detrás da base da língua. Os músculos que mantêm as vias aéreas abertas “adormecem” durante o sono e surge uma resistência à passagem do ar.

Esta resistência pode ocorrer ocasionalmente, por uma infecção respiratória superior (constipação), mas pode tornar-se permanente com outro tipo de obstáculos persistentes.O aumento das amígdalas e das adenóides é, habitualmente, a causa mais frequente da obstrução das vias aéreas superiores em idade pediátrica, atendendo a que atingem o seu maior volume entre o 3 e os 7 anos de idade.

Nas crianças mais velhas e adolescentes, a obesidade constitui outra das causas de obstrução. Outros factores podem contribuir para a dificuldade no fluxo aéreo: malformações craniofaciais, desvio do septo nasal, rinite alérgica, exposição a fumo de tabaco e fraqueza muscular.

O que acontece?

A resistência à passagem do ar nas vias aéreas pode ser parcial e ocorrer ao longo de grande parte da noite mas, em determinadas fases do sono e/ou certos períodos de doença, pode haver uma agravamento com ocorrência de períodos de obstrução total. Nesta altura, deixa de haver passagem de ar e o fluxo de ar só consegue ser restabelecido após um breve despertar.

Esta ocorrência, denominada de apneia obstrutiva, acompanha-se de um choro ou mudança de posição da criança. O despertar leva a um aumento da tonicidade dos músculos e à abertura das vias aéreas. A síndrome de apneia obstrutiva do sono (SAOS) ocorre em 20% das crianças que ressonam.

Sinais e Efeitos

O ressonar pode manifestar-se em qualquer período de idade pediátrica. Este sintoma é habitualmente subestimado pelos pais por múltiplas razões: acham que se trata de uma simples respiração mais ruidosa do que o habitual, porque pensam que se trata de uma característica familiar, porque os sintomas associados são inespecíficos ou porque acham que há-de passar com a idade.

O sono é um período fundamental para diferentes funções do organismo: crescimento e desenvolvimento do cérebro, consolidação da memória e capacidade de aprendizagem, entre outras. Assim, a perturbação respiratória do sono da criança vai manifestar-se através de variados sintomas e sinais, para os quais é necessário estar atento:

– sintomas nocturnos – respiração ruidosas e de boca aberta, pausas respiratórias, sono agitado, despertares frequentes, transpiração excessiva, entre outros.

– sintomas diurnos – dificuldade em acordar, queixas de dor de cabeça ou falta de apetite pela manhã, sonolência excessiva, dificuldades de aprendizagem, entre outros.

A perturbação respiratória do sono em idade pediátrica tem uma relação estreita com o crecimento. Nas crianças mais pequenas é frequente encontrar uma dificuldade no aumento de peso. Na criança maior, a obesidade pode ser considerada não só como causa, mas também como consequência da perturbação.

A acumulação de gordura em torno das vias aéreas e ao nível do diafragma dificulta o fluxo aéreo. A longo prazo, a síndrome de apneia obstrutiva do sono pode associar-se a consequências cardiovasculares e metabólicas que podem prolongar-se até à idade adulta.

 

Maria Helena Estevão
(Médica Pediatra)

Para ler o artigo na integra consulte a Revista Olhares 

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