Ao nascermos somos um condutor genético de cargas submetidas a um turbilhão de diferenças de potencial. Já todos os órgãos estão em funcionamento, mas sem passaporte ordenado para a vida, porque tudo começa quando o centro respiratório se emancipa do oxigénio inspirado pela Mãe e, em hipoxia, decide inspirar oxigénio do ar.

Por regra, um choro de alegria anuncia o puzzle em branco que cada um pintará para o seu Eu. Cada peça terá detalhes e cores próprias, arquitetadas pelas diferenças de potenciais próprias do olfato, da visão, da audição, do gosto e do tato.

Aprenderemos a cheirar, a ver, a ouvir, a saborear e tatear. Com equilíbrio, a composição de ondas e partículas que inexplicavelmente e em conjuntos finitos nos permitem pensar, reagir e acreditar que vida é nossa… E que a podemos controlar.

E, de incerteza em incerteza, de ilusão em ilusão, de poder em poder, acreditamos que cheiramos o que cheirávamos, que saboreamos o que saboreávamos, que tateamos o que tateávamos, que ouvimos o que ouvíamos e que vemos o que víamos… E que o tempo não passou…

Acreditamos… Neuro adaptamo-nos. O nosso cérebro acredita que ainda é o que era, que tem plasticidade para ver o que via, ouvir o que ouvia e tatear com a mesma energia, saborear com o mesmo gosto e cheirar o mesmo cheiro. Mas não, tudo mudou. Nem a alma é a mesma, nem o acreditar gera o mesmo sonho…

… Mas que importa tanta diferença, tanta perda, tanto envelhecimento, se pudermos continuar a acreditar que ouvimos a mesma música e vemos a mesma orquestra. Basta continuarmos a acreditar que a nossa Vida é uma pequena parte de Deus.

António Travassos
Médico Oftalmologista

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