Como se explica que um atleta de alta competição, símbolo de robustez física e de um estilo de vida saudável, possa morrer subitamente de causa cardíaca, enquanto pratica o seu desporto habitual?

O caso mediático do Euro 2020, em que o futebolista dinamarquês Christian Eriksen sofreu uma paragem cardiorrespiratória em pleno jogo, chamou a atenção para esta problemática. Se não tivesse sido assistido prontamente por uma equipe médica com suporte de um desfibrilhador, seria altamente provável que o incidente tivesse levado o atleta à morte. Como se explica que um atleta em aparentes perfeitas condições físicas possa morrer subitamente a realizar a sua atividade desportiva habitual? Será o desporto um perigo? Podemos fazer algo para evitar estas situações?

As paragens cardiorrespiratórias associadas à atividade física são situações raras, mas devastadoras, atendendo a que a maioria das vítimas é jovem e aparentemente saudável. Cerca de 80% das paragens cardiorrespiratórias em atletas ocorrem por causas cardíacas. Em termos da causa subjacente, depende muito da idade do atleta: Se este tiver mais do que 35 anos, a causa mais frequente é a doença coronária/enfarte agudo do miocárdio; Se tiver idade menor que 35 anos, habitualmente, a causa é hereditária, seja por uma doença do músculo cardíaco (miocardiopatia) ou por uma doença do ritmo cardíaco. Dentro das patologias que não são hereditárias e que podem predispor para morte súbita cardíaca, é também importante destacar a miocardite, que é uma inflamação das paredes do coração, cuja causa mais frequente é uma infeção viral.

É possível prevenir a morte súbita durante a atividade física? A grande maioria das situações pode ser detetada pela realização de uma avaliação pré-competitiva adequada, que visa a deteção precoce das principais doenças associadas a um risco acrescido de morte súbita. Nesta avaliação, será necessário fazer uma história clínica e exame objetivo detalhados, associado à realização de exames simples, como um eletrocardiograma ou um ecocardiograma. No entanto, apesar de raras, sabemos que é possível existirem situações clínicas dificilmente detetáveis e em que a primeira manifestação seja mesmo a paragem cardiorrespiratória.

O desporto é perigoso? A atividade física intensa pode aumentar a probabilidade de arritmias malignas, em pessoas que já tenham essa predisposição, por terem miocardiopatias ou doenças do ritmo cardíaco. No entanto, como essas situações não são frequentes e, considerando os enormes benefícios físicos e psicológicos do desporto, o seu benefício global compensa largamente algum risco associado existente.

Outra reflexão importante é a necessidade de todos nós, profissionais de saúde ou não, estarmos preparados para saber reagir a uma situação de paragem cardiorrespiratória, seja num recinto desportivo ou em qualquer outro local. Para que isso aconteça é necessário que duas condições se verifiquem: ter presente os conceitos essenciais de suporte básico de vida, e que estejam disponíveis desfibrilhadores automáticos externos, que permitam realizar atempadamente a reanimação eficaz destas situações.

Relativamente ao suporte básico de vida, é essencial que a sua aprendizagem seja parte do conteúdo obrigatório do ensino nas escolas em Portugal, em mais do que um momento do plano curricular, sempre complementado com treino em modelos. Todos iremos presenciar uma paragem cardiorrespiratória na nossa vida, mais tarde ou mais cedo, e temos que estar preparados para saber ajudar quando esse momento chegar. O primeiro desafio é reconhecer a situação, diferenciando-a de situações mais leves como “quebra de tensão”, “golpe de calor” ou hipoglicémia. Numa paragem cardiorrespiratória, a vítima não está a respirar e não tem pulso, devendo ser contactado o 112, iniciando imediatamente o suporte básico de vida com compressões torácicas, enquanto não chega ajuda mais diferenciada.

O tempo entre a paragem cardíaca, a sua deteção e o início das manobras de reanimação é crucial para mantermos a viabilidade da vítima e é muitas vezes a diferença entre a vida e a morte. Que estes casos mediáticos sirvam para sensibilizar a população e os órgãos governamentais para a necessidade de ensinar suporte básico de vida a todos!

Luís Leite
(Médico Cardiologista)

 

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