Uma colheita de sangue do próprio doente é quanto basta para se obter os chamados fatores de crescimento, que têm o potencial de promover a regeneração de tecidos lesados. A ortopedia recorre a este plasma enriquecido para o tratamento de algumas lesões

As frequentes lesões em desportistas e a necessidade de acelerar a recuperação dos tecidos lesionados, justificam que se recorra a diferentes processos que estimulem e potenciem a regeneração dos tecidos e uma recuperação mais precoce. O recurso ao plasma enriquecido é uma solução.

Os fatores de crescimento são bio estimulantes de origem proteica, presentes no plasma do próprio doente que, como o nome indica, têm a finalidade de estimular e potenciar a regeneração dos tecidos. Não sendo uma terapêutica nova e após muita expectativa, depois da sua introdução há mais de 20 anos, a sua aplicabilidade tem sido usada nas mais diversas áreas da medicina, desde a oftalmologia, medicina dentária, cirurgia plástica e ortopedia.

O seu princípio assenta na administração de proteínas presentes no próprio sangue do paciente que, após um processo biofísico de centrifugação, são concentradas e administradas no local da lesão. É este conjunto indiferenciado de proteínas que pode potenciar a formação tecidular (daí o termo fator de crescimento), chamando ainda outras proteínas para o local da lesão, potenciando e acelerando a reparação e a regeneração da lesão.

É certo que em trabalhos ditos pré-clínicos (laboratoriais) este potencial reparador e biológico já foi amplamente comprovado mas, na área ortopédica, tem havido alguma inconsistência em reproduzir este mesmo resultado para a prática clínica.

Pode-se especular que isso aconteceu por – inicialmente – o seu uso ter sido alargado para o que deveriam ser as suas reais indicações ou, porque, não se tratando de um fármaco, a forma como este mesmo concentrado plaquetário é formado e obtido, difere de acordo com o kit comercial que se utiliza e seu processamento. Motivos que ajudam a perceber porque os resultados nem sempre foram consistentes, acrescido do facto de este ser um procedimento com custos económicos associados. Serão estas as razões que têm levado a uma inconsistência na sua aplicabilidade e uso corrente.

A verdade é que os fatores de crescimento são dos temas mais amplamente estudados e debatidos em ortopedia e noutras áreas do saber médico e é praticamente consensual, que poucas são as suas contraindicações ou efeitos indesejados, havendo trabalhos robustos e de consenso médico quanto o seu uso. 

As evidências apontam a sua utilização para os casos de artrose do joelho em estadio intermédio, no tratamento de algumas tendinopatias e roturas musculares.

Na prática, este procedimento é bastante simples e começa com uma colheita de sangue periférico do próprio doente. É esta amostra de sangue que será posteriormente submetida a um processo de centrifugação, obtendo assim a fração do “plasma rico” que será administrada no local da lesão.

A aplicação dos fatores de crescimento pode ser realizada isoladamente, associada a outros fármacos (como o Ácido Hialurónico, que aparenta potenciar o seu feito) ou a outros procedimentos cirúrgicos. O número de sessões é variável consoante a lesão, mas pode variar de uma a três. O procedimento pode demorar cerca de uma hora e é feito em regime de ambulatório e sem necessidade de internamento.

Como se pode depreender, e tendo em conta as variáveis em causa e a sua consequente multiplicidade nos resultados obtidos tendo em conta: (kit do fator de crescimento e sua ativação) x (tipo de lesão) x (nº de aplicações) x (outros), fica explicado o viés na obtenção dos desejados efeitos. Também por isso, a sua aplicação deve ser sempre discutida e avaliada caso a caso, com o seu médico.

João Pedro Oliveira
(Médico, Ortopedista; OM n.º 46420)

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