A resposta às baixas temperaturas não é igual para todos. Há uma fatia da população que tem maior dificuldade na regulação da temperatura corporal, tão só, porque o metabolismo é mais lento. O Inverno não deve ser significado de hibernação, até porque todos somos dependentes da produção de vitamina D, adquirida por ação da luz solar…
Com o Inverno vêm as temperaturas mais baixas, maior nebulosidade, chuva mais frequente, aumento de humidade, dias mais curtos e menor insolação solar. As condições climáticas favorecem os vírus e as bactérias, que mais facilmente sobrevivem e nos infetam. É o tempo das infeções respiratórias, que atingem amplamente as populações com as nefastas consequências conhecidas, entre as quais as mortes por pneumonia. Os idosos e as pessoas que sofrem de patologia pulmonar crónica estão em maior risco neste período do ano.
Durante esta estação também o risco de hipotermia é elevado, sobretudo em indivíduos idosos e de condição económica e social mais baixa, particularmente os sem-abrigo.
A pele e os tecidos subjacentes são mantidos numa temperatura constante (aproximadamente 37 graus) pela circulação sanguínea e outros mecanismos. O sangue obtém o seu calor principalmente da energia que as células libertam, quando processam os alimentos (metabolizam), havendo a necessidade de um fornecimento estável de alimentos e de oxigénio. Para um bom funcionamento de todas as células e dos tecidos do organismo, é necessário que o corpo mantenha uma temperatura normal e constante. Numa pessoa com uma temperatura corporal baixa, a maioria dos órgãos, em especial o coração e o cérebro, tornam-se lentos e, em casos extremos, deixam de funcionar.
Acrescente-se ainda o menor número de horas do dia, associado à tendência das pessoas permanecerem mais tempo dentro de casa, acabando por conduzir a uma menor produção de vitamina D, um importante aliado do sistema imunitário. Isto porque a quantidade adquirida pela alimentação é largamente insuficiente para as necessidades do nosso organismo, sendo as nossas necessidades supridas sobretudo pela sua produção a partir do 7-dehidrocolesterol, por ação da luz solar.
Os indivíduos em maior risco de contrair doença pulmonar aguda ou de exacerbar doença pulmonar crónica são os idosos. Este grupo populacional tem particular risco porque, habitualmente e simultaneamente, é portador de doenças crónicas, frequentemente associadas a menor imunidade, com mais dificuldade em responder às variações de temperatura, além de que este grupo etário vive isolado.
Os indivíduos que sofrem de patologias respiratórias crónicas, salientando a asma e a doença pulmonar obstrutiva crónica, sofrem deterioração mais rápida da condição dos seus pulmões quando se sucedem infeções pulmonares e é durante este período do ano em que estas são mais frequentes.
Os idosos entram mais facilmente em hipotermia por maior dificuldade na regulação da temperatura corporal, com deficiente adaptação às temperaturas baixas, porque o seu metabolismo é mais lento. Devemos pensar em hipotermia quando o indivíduo apresentar problemas de consciência e letargia, com movimentos lentificados e descoordenados, associados a temperatura corporal abaixo de 35ºC, calafrios, pele fria, pulsação fraca e respiração lenta. As pessoas com menos capacidade de mobilidade, como aqueles com sequelas de AVC, estão ainda em maior risco.
Também a diabetes e o hipotiroidismo aumentam o risco de hipotermia por serem doenças crónicas que diminuem a resposta a temperaturas baixas. Outros fatores podem condicionar pior resposta às temperaturas baixas como o consumo de álcool. A vitamina D também parece reduzir – serão necessários mais estudos para o confirmar – a incidência de exacerbações da asma e melhorar a função respiratória em indivíduos com doença pulmonar. Esta vitamina produzirá esses benefícios pelos seus efeitos imunitários e pela estimulação da produção de proteínas antimicrobianas como a catelicidina e a defensina β-4.
Com o menor número de horas de insolação solar durante o inverno produzimos menos vitamina D o que podemos compensar parcialmente ingerindo alimentos ricos nessa vitamina, como atum, salmão, ovos e azeite. Contudo é necessária, caso não haja contraindicação, a exposição à luz solar e, se existir indicação médica, fazer uma suplementação.
Para diminuir o risco de infeção respiratória, de problemas pulmonares e de hipotermia podemos adotar várias atitudes:
– Vacinação antigripal, aos indivíduos com mais de 65 anos de idade e aos incluídos em grupos de risco (anualmente).
– Vacinação antipneumocócica (de cinco em cinco anos).
– Evitar, se possível, contacto com pessoas engripadas, lavar as mãos após contacto com materiais possivelmente contaminados, uso de máscara de proteção quando indicado.
– Calafetar portas e janelas, manter o ambiente quente no domicílio (18 a 21ºC), arejar o ambiente.
– Exposição solar.
– Usar várias camadas de roupa, manter a roupa seca.
– Cobrir a cabeça, uso de proteção dos dedos das mãos e dos pés.
– Alimentação variada e saudável, incluindo nutrientes ricos em vitaminas.
– Manter-se hidratado, ingerir bebidas aquecidas.
– Evitar bebidas alcoólicas.
– Evitar consumo de tabaco.
– Exercício regular (em períodos de frio mais intenso não o realizar no exterior e evitar exposição a vento intenso).
– Os idosos que vivam isolados devem manter contacto diário com os seus familiares e/ou amigos e/ou vizinhos e/ou cuidadores.
Estas medidas e outras estão incluídas nas orientações da Direção Geral de Saúde para os períodos de frio, visam diminuir o risco, mas não excluem a vigilância regular das doenças crónicas e da saúde em geral pelo médico assistente, que dará as orientações adequadas a cada caso.
Paulo Queiroz (Médico de Medicina Geral e Familiar)
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Muito bom o artigo esclarecedor com uma linguagem bem popular gostei muito
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