Já ouviu falar? Não. Foi a primeira vez que se fez uma cirurgia deste tipo. É um caso único e por isso inédito, que se vem juntar ao rol de sucessos que a Oftalmologia do Centro Cirúrgico de Coimbra tem vindo a registar

Tecnicamente, esta nova cirurgia realizou com sucesso uma translocação parcial do segmento anterior do olho. Isto é, executaram-se as manobras cirúrgicas necessárias para que fosse feita uma translocação, uma deslocação de algo para outro lugar. Neste caso, a mudança foi feita de um olho para outro olho.

A necessidade de mudança estava justificada no facto de o doente ter perdido a visão nos dois olhos e, se num deles já não era possível qualquer tipo de recuperação, no outro olho, os exames de diagnóstico indicavam que existia a possibilidade, ainda que remota, de ver alguma coisa. A parte posterior daquele olho indicava que estavam ativas algumas das funções que permitem o acesso à visão.

Durante cinco horas e 18 minutos, três cirurgiões de oftalmologia do Centro Cirúrgico de Coimbra, António Travassos, José Galveia e Sofia Travassos, apoiados pela anestesista Paula Pereira, realizaram uma cirurgia única em todo o mundo, com o objetivo de mudar parte da estrutura do segmento anterior de um olho, sem destruir o ângulo da câmara anterior. Foi necessário abrir a conjuntiva e criar uma coroa circular na esclera, para que fosse obtido um flap ou aba, que teria de ser deslocada para o outro olho, juntamente com toda a córnea. A incisão implicava necessariamente um cálculo rigoroso da profundidade dos cortes feitas para criar toda a coroa circular, caso contrário ficaria comprometida a deslocação e respetiva implantação das peças, com a troca de lugar.

«Esta é uma cirurgia que prova que nunca devemos desistir de fazer o melhor por cada doente e, neste caso específico, tínhamos de tentar proporcionar melhor qualidade de vida, porque este era um caso em que a alternativa era deixar manter o doente na cegueira», explica-nos António Travassos, o cirurgião principal.

Hoje, o doente já consegue obter uma acuidade visual de 1/10, mas este valor tem condições para melhorar ao longo do processo de recuperação que se segue. Depois de recuperar a visão, que tinha dado como perdida e já irrecuperável, o doente ainda se emociona sempre que fala sobre este seu problema e apenas consegue afirmar que «em Oftalmologia também se fazem milagres».

Este caso clínico vai ser editado no Atlas de Oftalmologia, RL- Eye, com a publicação das imagens obtidas nos exames de diagnóstico, antes e depois da cirurgia. Ver www.atlasrleye.com

Em poucos meses, esta é a segunda vez que o Centro Cirúrgico de Coimbra realiza cirurgias inéditas, sempre com o objetivo de proporcionar uma recuperação de visão, a quem já estava cego. O primeiro transplante duplo de córnea, em simultâneo, com vitrectomia e extração de corpos estranhos foi também aqui realizado recentemente, acrescentando-se agora a primeira cirurgia que executa uma translocação do segmento anterior, com sucesso.

 

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