A informação torna-nos competentes e críticos. Fica mais fácil perceber quais as cautelas que fazem sentido e como a medicina curativa evoluiu para preventiva e caminha para predizer o que pode acontecer ao indivíduo X daqui a cinco ou 10 anos. Quem quer ficar à espera da doença?

 

Vão longe os tempos do caldo de galinha… Hoje, é vulgar acreditar que serão os comprimidos a cumprir essa missão e se ligarmos a televisão a determinadas horas ficamos crentes que há um comprimido para todos os males. Há comprimidos que põem velhinhos a correr tanto como os netos, vitaminas que nos fazem superativos, soluções que “apagam” as marcas do tempo que passa e ainda propostas para deixar de ressonar, para não ter fadiga, para ouvir melhor…. Acreditam mesmo nisto tudo? Há quem confie, sim.

Não estamos aqui para desmentir. Mas temos a responsabilidade de ajudar a gerir a melhor informação, com crítica e bom senso. Apesar de este ser o tempo em que a informação disponível ocupa Terabytes, a iliteracia em saúde não mostra tendência para decrescer. O entendimento sobre medicina tem barreiras e não é claro para os leigos. Agarramo-nos ao que parece mais fácil, porque não exige um esforço pessoal. Há um problema? Então deve haver um comprimido como resposta, se não há, devia haver… Porque não se lembraram disso antes (pensamos logo).

Esquecemos as cautelas e nem nos lembramos do caldo de galinha… A saúde passou a ser um produto, vendido como mercadoria e que até se exibe em algumas prateleiras de supermercado, veja tão só os rótulos de alguns pacotes de leite ou de cereais, recheados de “poderosas proteínas”, a dar a ideia que são únicas e que a nossa saúde depende mesmo destes produtos… Nada disto é verdade. Certo?!

A informação em saúde torna-nos competentes e ajuda-nos a tomar decisões críticas, fornece as ferramentas que podemos usar para ganhar o poder de julgar e de não agirmos passivamente. Percebemos que há efetivamente cautelas e depreendemos que prevenir para não ter de remediar acaba por ser um bom investimento. Mas, como investir neste projeto que pode evitar doenças e acrescentar anos com qualidade de vida? A informação torna-nos competentes. É assim que poderemos prevenir doenças, mas também a corrupção, os acidentes, a violência doméstica, o insucesso escolar, o bullying….

A medicina há muito que deixou a fase unicamente curativa, para se tornar preventiva e, mais recentemente, preditiva. Mas, as alterações e os objetivos nem sempre foram acompanhados ou percetíveis pela sociedade. O sol é um bom exemplo e acaba por ser um assunto que divide os portugueses. Há o grupo que não liga nenhuma aos recados da medicina, quando desaconselha a exposição ao sol entre as 11h00 e as 16h00, para prevenir o risco do cancro da pele. Este é o grupo que não reconhece a medicina como uma ciência exata, desvaloriza o risco e, se comprou férias é para gozar tudo por inteiro. Sentem-se imunes e acreditam que esse destino não lhe baterá à porta, apesar de ter rondado o tio, o vizinho e a sogra da prima. Depois, há o segundo grupo de portugueses que leva tão a sério os malefícios do sol que deixou de valorizar a necessidade de tomar banhos de sol para produção de vitamina D, optando pelo “tal comprimido”, que irá substituir a reação química que acontece na nossa pele sempre que apanhamos sol… Nenhum dos dois está correto, certo?

Pelo menos à luz do que foi concebido pela ciência. O sol faz bem, pelo menos 10 minutos por dia e quando a nossa sombra é maior do que nós próprios. É assim que a nossa pele desencadeia a reação química que leva à produção de vitamina D, na dose certa e adequada a cada um de nós. É fácil, não é?

Com a alimentação acontece quase o mesmo. Há os exagerados, os que pecam por defeito e os preguiçosos, que nem se dão ao trabalho de aprender a cozinhar ou a pensar naquilo que será uma alimentação equilibrada. Esquecemos que tudo é química e que a bioatividade e a biodisponibilidade do que ingerimos acaba por interagir, como qualquer substância.

Apesar da evolução, a sociedade continua à espera que a medicina mantenha apenas as funções de outrora, curar. Admite-se que prevenir ou predizer são zonas cinzentas, próximas da adivinhação. Não é bem assim. Se não fosse o programa de vigilância para mulheres e crianças que Portugal colocou em prática há alguns anos, nunca teríamos estado entre os cinco melhores países do mundo em saúde materno-infantil. Saúde preventiva é isto.

Saúde preditiva será a solução que hoje apresentaram a A., a jovem de 22 anos que viu a mãe, a tia e a irmã mais velha morrerem de cancro da mama. A descodificação do ADN abriu a porta a esta nova fase da medicina, que consegue predizer a predisposição genética de um indivíduo que hoje é saudável, mas que amanhã pode não ser. A terapia genética ainda não tem resposta para tudo e antecipar o conhecimento prévio da doença poderá não ser o melhor caminho. A espera pela doença irá tomar conta desta vida. Hoje, alguém quer saber se, algures em 2021, poderá ser vítima de um aneurisma?

Conceição Abreu

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