O valor “normal” de colesterol é igual para todos? Não. Este é apenas um dos mitos que ainda prevalece sempre que o colesterol é tema de conversa. A barreira nem sempre está nos 200 mg/dL, porque o que é mau para uns pode ser aceitável para outros. Esclarecemos as verdades e as mentiras à volta do colesterol, porque não vivemos sem ele, mas não precisamos morrer por causa dele

A doença cardiovascular devido à aterosclerose é a principal causa de mortalidade em Portugal, seja através do enfarte agudo do miocárdio (EAM) ou do acidente vascular cerebral (AVC). Os fatores de risco são vários e incluem o tabagismo, a dislipidémia, o stress, a obesidade, a hipertensão arterial, a diabetes, o sedentarismo e a alimentação não-saudável. Apesar de não ser o único fator a considerar, a evidência científica mostra que ter o colesterol elevado (nomeadamente o colesterol LDL – “o mau”) constitui um dos mais fortes fatores de risco!

O que é ter o “colesterol alto”?

Colesterol total acima de 200 mg/dL é alto, e abaixo de 200 mg/dL é normal? É tão simples quanto isso? Não! Deve ser feita uma avaliação médica personalizada do risco cardiovascular global que inclui vários fatores como a idade, género, antecedentes pessoais, hábitos tabágicos ou tensão arterial. Só depois de ser feita essa análise é que poderemos dizer qual é o “colesterol normal” para aquela determinada pessoa. Por exemplo, ter 210 mg/dL pode ser perfeitamente aceitável para uma pessoa, mas muitíssimo alto para outra!

Todas as pessoas com “colesterol alto” devem fazer medicação?

Não. Consoante a análise do risco cardiovascular daquela pessoa em particular e o seu valor de colesterol, conseguimos determinar quanto devemos baixar de colesterol naquele caso. Em determinadas circunstâncias, a modificação do estilo de vida (redução da ingestão de gorduras, atividade física regular, perder peso) podem ser suficientes, enquanto noutras elas devem ser associadas a medicação específica.

Uma dieta mais saudável é suficiente para baixar o colesterol?

Depende dos casos. Destaco que, ao contrário do que habitualmente se pensa, a grande maioria do colesterol (cerca de 70%) é produzido pelo nosso próprio organismo a nível do fígado, apenas o restante provém da alimentação. Essa é a razão pela qual, algumas vezes, a modificação da dieta com redução da ingestão de gorduras não baixa o suficiente o colesterol e necessitamos mesmo de iniciar medicação.

Qual é o benefício de tomar medicação para baixar o colesterol?

Os medicamentos mais usados são as “estatinas”, que são substâncias que reduzem a quantidade de colesterol que é produzida no nosso fígado. Assim, ao baixar a quantidade de colesterol que está em excesso no sangue, também se consegue reduzir o colesterol que se deposita na parede dos vasos sanguíneos. A evidência é esmagadora e tem base em estudos com centenas de milhares de doentes no mundo inteiro: se uma pessoa tiver alto risco cardiovascular, esses medicamentos vão reduzir bastante a probabilidade de vir a ter um enfarte, um AVC ou de morrer precocemente!

Todos os medicamentos para baixar o colesterol têm efeitos secundários?

Não. Apesar de se terem levantado algumas suspeitas de riscos eventuais, os estudos têm mostrado que são medicamentos muito seguros! Sim, existe um ligeiro aumento do risco de diabetes associado ao uso das estatinas, mas este risco absoluto é muito baixo e não se sobrepõe ao benefício indiscutível de estarmos a reduzir a probabilidade de vir a ter um enfarte. Por outro lado, alguns doentes queixam-se de dores musculares ou cãibras quando tomam estatinas mas, se isso acontecer, existem alternativas dentro ou mesmo fora desse grupo de medicamentos que podem evitar isso. Portanto, se isso lhe acontecer, não deixe simplesmente de tomar o medicamento, fale com o seu médico porque muito provavelmente existe uma alternativa para que não sinta isso.

Luís Leite (Médico, Cardiologista)

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