O Programa Nacional de Vacinação (PNV) inclui a vacina contra o HPV para todas as raparigas aos 10 anos de idade. A classe médica vai mais longe e já são muitos os que recomendam esta mesma vacina também para os rapazes. A prevenção de determinados tipos de cancro justifica estender esta proteção aos dois géneros

São mais de 150 os diferentes tipos de vírus do Papiloma Humano (HPV), uns de alto risco e outros nem tanto. A infeção persistente por alguns dos tipos de HPV pode terminar em cancro, mas a infeção por outros tipos pode nem provocar sintomas e podemos nem sequer dar pela sua existência ou permanência no nosso corpo.

As vacinas existentes não protegem contra a infeção por todos tipos de HPV, mas a atual vacina 9 valente (que protege contra 9 tipos de HPV) tem potencial para prevenir 90% de todos os casos de cancro do colo do útero, por exemplo. A proteção máxima é conseguida com a sua administração antes do início da vida sexual e, em Portugal, a Direção Geral de Saúde incluiu esta vacina no PNV em 2008, sendo atualmente administrada apenas a raparigas, preferencialmente aos 10 anos de idade.

Os rapazes não beneficiam atualmente da inclusão desta vacina no PNV, contudo a sua vacinação é igualmente recomendada, uma vez que a vacina também é altamente eficaz no sexo masculino. Uma recomendação baseada em vários estudos que envolveram milhares de rapazes e que comprovaram eficácia na prevenção de muitos cancros, nomeadamente cancro do pénis, anal e da cabeça e pescoço, para além da prevenção contra os condilomas genitais.

Esta recomendação, para incluir os rapazes em programas de vacinação, é apoiada na evidência, e muitos países já evoluíram para uma vacinação neutra de género (vacinam-se igualmente raparigas e rapazes).

Em Portugal, a Sociedade Portuguesa de Pediatria (SPP) recomenda a vacina contra o HPV nos rapazes, a título individual. As recomendações da SPP baseiam-se no facto de a carga da doença por HPV ser muito relevante também nos rapazes. Junte-se ainda o facto de, no género masculino, não existir um rastreio organizado para a prevenção de cancro associado ao HPV – tal como existe para as mulheres, com o rastreio citológico para a identificação precoce de lesões precursoras de cancro do colo do útero. Ou seja, a única prevenção que existe para o género masculino é tão-somente a vacinação. Não se excluem os benefícios da imunidade de grupo, que são observados sempre que a taxa de vacinação no sexo feminino tiver uma elevada cobertura, no entanto, também não podemos esquecer a circulação de pessoas entre diferentes países e realidades distintas.

Em Portugal, a taxa de vacinação no sexo feminino ultrapassa os 85%, uma das melhores do mundo, sendo expectável que se traduza numa redução significativa da infeção por HPV e, consequente, numa diminuição brutal dos vários tipos de cancro associados a este vírus.

A vacina contra o HPV tem um bom perfil de segurança e o momento ideal para a administração da primeira dose é antes do início da atividade sexual, a sua inclusão no PNV é considerado um avanço em matéria de saúde pública. Está na altura de incluir também os rapazes neste programa nacional.

Gustavo Januário (Médico Pediatra)

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