Gosto da sombra de uma árvore num dia de Sol abrasador, ou da sombra de uma mulher elegante sobre sapatos de salto alto. A sombra é esguia, ondulante e transmite a fragrância do corpo, do gesto, da beleza.

A sombra é sempre menos luz, menos brilho, é sempre secundária. Mas pode ser calmante, berço para uma boa sesta, lugar para um amor de momento. A sombra é um dom da divina providência para os que estão cansados de um trabalho físico ou intelectual. A sombra é movimento, segue a luz que brilha, agarra a inteligência de quem a merece e a usa.

Mas há sombras cegas… As que não distinguem os que andam à sombra… Os barriguditos, os que não conseguem distinguir a sombra da hérnia umbilical que ostenta líquido ascítico e a confundem com a do sexo que não têm. À sombra da cegueira da sombra sonham as suas vitórias, congeminam a derrota do futuro e deixam evaporar o presente, para avivar a luz das suas não memórias.

À sombra e com a sua sombra destroem o luar, as emoções, os campeões e o passado. As árvores são abatidas e caem de pé, as sombras virgens de luz apagam-se e a obesidade produz ciência que só os que andam à sombra reconhecem. Não há mais “ uma lição” para uma cidade, não há mais ambição para a viúva remediada que esbanja a pequena herança!

À sombra, a sombra terá mais luz quando as chamas da não razão incendiarem a inteligência, arruinarem a razão, destruírem a juventude.

À sombra, da sombra cega, haverá mais cegos que não enxergam a sua cegueira e a dos outros. A cidade ficará também à sombra da cegueira que não viu nem soube reconhecer.

António Travassos (Médico Oftalmologista)

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