É do interesse de todos, porque o ar que respiramos (dentro e fora dos edifícios) contém muito mais do que aquilo que necessitamos para viver. Há partículas voláteis em suspensão no ar e estes contaminantes não podem, nem devem, entrar numa sala operatória, por exemplo. Daí a pressão hospitalar para criar zonas “limpas” e zonas “sujas”. O AVAC é o instrumento imprescindível para fazer esta separação. Explicamos aqui como cuidamos do nosso ar

Respirar é uma função básica e fundamental para nos mantermos vivos. Inalamos o ar que nos circunda, dentro e fora de edifícios e, consequentemente, tudo o que ele contém, o que necessitamos para nos mantermos vivos e tudo o resto que poderíamos perfeitamente dispensar, mas que se torna inevitável. Tudo o que se encontra em suspensão irá penetrar através do nosso sistema respiratório e seguramente não será só o oxigénio que tanto precisamos.

Pós, partículas que se soltam das mais variadas superfícies, microrganismos (alguns bastante patogénicos), expelidos cada vez que alguém expira, tosse, canta ou simplesmente fala, partículas que se deslocam cada vez que as portas se abrem, partículas voláteis que permanecem em suspensão no ar após uma desinfeção ou limpeza. Tudo isto entra nos nossos pulmões, no sistema circulatório e acaba por chegar a cada célula do nosso corpo.

A via aérea é um meio de transmissão para muitas infeções respiratórias, todas devidas à inalação de partículas que podem ter menos de 1 μm e chegar aos 100 μm (a dimensão máxima que uma partícula pode ter para ser inalada). Não esquecer que os microrganismos encapsulados em gotas de fluidos são, para todo o efeito, partículas! E 1 μm é a milésima parte do milímetro.

Muitos contaminantes biológicos, como fungos, bactérias, ácaros e até mesmo vírus em aerossóis, originados pela simples respiração do indivíduo, encontram substrato nos pólenes, escamas de pele, pelos, fibras que se soltam de materiais, etc… Toda esta matéria contamina o ar que respiramos e, sendo nos dias de hoje imperativa a existência de ventilação mecânica em muitos espaços, não é difícil imaginar que os próprios equipamentos instalados, responsáveis por tratar e renovar esse ar, acabem por ficar eles próprios “infetados”.

Em ambiente hospitalar qualquer prevalência de microrganismos no ar pode ser considerada como um potencial risco de infeção, tanto para profissionais como para doentes, estes últimos mais vulneráveis e muitas vezes com patologias que diminuem, à partida, a resistência do organismo e agravam profundamente o estado de saúde face ao risco de exposição.

Não podemos de forma alguma conceber este nível de exposição para um doente debilitado, com um sistema imunitário afetado, doentes internados em cuidados pós-operatórios, doentes com feridas, doentes cirúrgicos num bloco operatório. O risco de infeção é bastante elevado e tem que ser eliminado a montante.

Obviamente que os procedimentos internos de gestão e avaliação de riscos, assim como uma higienização adequada minimizam, à partida, a presença de elementos patogénicos nos espaços. No entanto, um controlo adequado das condições do ar interior, uma monitorização dos potenciais agentes de infeção, uma avaliação periódica da qualidade do ar e uma correta operação dos sistemas AVAC são essenciais para uma estadia ou passagem segura numa instituição hospitalar.

Os sistemas AVAC são talvez as instalações mais importantes, do ponto de vista de infraestruturas hospitalares. Estas unidades, equipadas com diversos filtros capazes de bloquear micropartículas, são responsáveis por assegurar a qualidade do ar nos diferentes espaços, nomeadamente nos blocos operatórios, onde o risco de infeção é maior e permitem ainda uma renovação adequada do ar num determinado espaço.

A regulação dos caudais de ar injetado e extraído permitem estabelecer os diferenciais de pressão desejados (pressões positivas, negativas ou neutras), de forma a diminuir os riscos de prevalência e dispersão de microrganismos que podem levar à ocorrência de infeções. Simplificando estes conceitos, porquê a necessidade de diversas pressões diferenciais para impedir a proliferação de infeção?

As sobrepressões e subpressões devem ser estabelecidas à custa do caudal nominal do ar que é insuflado e extraído de um espaço e dependem da natureza dos procedimentos que ocorrem no interior desses:

  • Sala com pressão neutra – quando se verifica que a pressão existente na sala é igual à das salas adjacentes. Neste caso não se verificam trocas gasosas ou fluxos de ar entre espaços comunicantes.
  • Sala com pressão positiva (sobrepressão) – quando a pressão existente na sala é superior à das salas adjacentes. Neste caso verificam-se trocas gasosas e uma pressão positiva forçará o fluxo de ar a sair pelos espaços e aberturas existentes e a deslocar-se para as áreas comunicantes. Este sistema é necessário em cirurgias limpas e em que não se pode correr o risco de contaminação proveniente do exterior. As zonas “limpas” devem estar sempre em sobrepressão relativamente às zonas circundantes.
  • Sala com pressão negativa (subpressão) – quando a pressão existente na sala é inferior à das salas adjacentes. Neste caso também se verificam trocas gasosas, mas em sentido contrário às descritas anteriormente. Numa sala de pressão negativa, ocorre a entrada de ar na sala pelas aberturas existentes, fruto de uma elevada extração do ar no interior, comparativamente à do exterior. Uma pressão deste tipo é desejada quando temos procedimentos infeto contagiosos a decorrer e temos que conter os microrganismos patogénicos dentro desse espaço, evitando a sua proliferação. Nos últimos tempos ouvimos falar deste tipo de salas na sequência do tratamento de doentes com covid-19, devido à necessidade de a doença não se espalhar por corredores e áreas comunicantes. As zonas “sujas” e “infetadas” devem estar sempre em subpressão.

Simultaneamente, as instalações AVAC permitem as condições de temperatura e humidade exigidas para as diferentes áreas técnicas, de forma a ajustar não só as condições de conforto para os ocupantes, mas também as condições que minimizam a proliferação de microrganismos, potencialmente perigosos para a saúde das pessoas expostas.

De ressalvar que uma manutenção adequada destas infraestruturas diminui a possibilidade de ocorrência de falhas e a probabilidade de contaminação dos ambientes internos com partículas, entre as quais os elementos patogénicos. A mudança frequente de filtros é fundamental para garantir essa segurança.

Uma rotina para avaliação da qualidade do ar interior permite validar a prevalência das condições exigidas e assegurar que as instalações estão a cumprir com a sua função. Estes ensaios, conduzidos por empresas especializadas, incluem a realização de medições e amostragens de parâmetros químicos, físicos e microbiológicos: compostos orgânicos Voláteis Totais (COVT’s); dióxido de carbono (CO2); monóxido de carbono (CO); partículas suspensas no ar; caracterização microbiológica do ar (presença de fungos e bactérias); determinação da taxa de renovação do ar interior em salas onde sejam exigidas condições especiais de higiene ambiental; medição do diferencial de pressão e classificação de salas limpas.

Uma “sala limpa” é um ambiente controlado, no que respeita à concentração de partículas em suspensão no ar. Este ambiente é requerido nas salas de cirurgia, laboratórios farmacêuticos e outros locais similares. Estes espaços têm uma classificação de acordo com as exigências e seguindo citérios normalizados, devendo ser implementados os meios e os procedimentos para que esses níveis de classificação se mantenham. Desta forma, o trabalho de manutenção nos sistemas AVAC terá de ser validado por medições levadas a cabo com recursos técnicos específicos de amostragem e monitorização do ar, de forma a garantir a classificação ISO necessária.

Concluindo, não é em todo o lado que podemos encontrar o ar puro que tanto desejamos e precisamos. Enquanto vivemos e nos movimentamos estamos totalmente expostos ao ambiente que nos rodeia e não conseguimos de todo controlar o que está no ar que respiramos e que entra no organismo até aos nossos pulmões.

Cabe às organizações, independentemente do setor de atividade, a responsabilidade de zelar pela saúde de quem as frequenta e cuidar do ar que
oferece às pessoas que entram nesses espaços, sejam elas trabalhadores, clientes, doentes ou visitantes. Individualmente e a cada um de nós compete-nos continuar a manter a etiqueta respiratória, evitar os espaços confinados e ainda os aglomerados de gente.


Ana Aquino
(Gabinete de Qualidade)

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