Há uma outra dor, para lá da dor física. Invisível aos olhos, abstrata e que pode atingir intensidades insuportáveis. E, contudo, estar dor nunca deixará de existir…

A dor não existe só no corpo. Vivemos numa realidade social em que valorizamos o que é funcional e nos esquecemos do que é afetivo. Facilmente a dor psíquica se torna numa dor invisível (para os olhos, como nos diria Saint Exupéry) que transpõe os sentimentos do corpo, atormenta em surdina e para a qual não há analgésicos.

Em qualquer momento podemos estar sujeitos a situações que se concretizam em traumas psíquicos, tal como estamos sujeitos a traumas físicos. A dor psíquica resulta, como a dor física, de um excesso de estímulos, internos e externos, que invadem a pessoa e que ultrapassam os seus limites de tolerância, dando origem ao sofrimento (neste caso psíquico).

A dor mental, vivida como experiência devastadora para o sujeito, pode atingir intensidades insuportáveis. Quando os acontecimentos põem em causa a capacidade de concretizar objetivos e de manter esperanças e expectativas, e o sujeito tem a tendência de relacionar estas dificuldades com as suas próprias falhas, o sentimento de inadaptação pode ser de tal ordem que provoca muitas vezes a tentativa de fugir da realidade.

Muitas vezes o sentimento psíquico imposto por um acontecimento doloroso pode ser mais devastador do que uma lesão propriamente dita. Existem vários estudos que nos demonstram que as pessoas consideram que a dor psíquica é mais difícil de suportar do que a dor física.

A dor da alma tem como causas situações conhecidas ou desconhecidas do sujeito, que se concretizam em sentimentos e emoções penosas e, muitas vezes, sem descrição possível. O medo, a angústia, a tristeza, a insegurança e a desesperança são paralisantes e tornam-se companhia constante da pessoa. Às vezes fica o desânimo e a prostração, outras vezes faz-se sentir a tentativa inconsciente de transformar tudo isto em algo mais visível e podem surgir sintomas reflexos de todas estas dificuldades. 

A dor mental sempre foi incompreendida e ainda hoje se verificam atitudes de descriminação relativamente ao sofrimento psíquico. A sociedade continua a manter atitudes negativas relativamente a estas questões, mesmo quando elas não são sinónimos de doença mental. Outra realidade é a tentativa de as tornar naturais, banalizar, desvalorizar e negar, como se as pessoas não tivessem razão para sofrer. Estas reações que, com  frequência vêm dos mais próximos, só tendem a agudizar o problema já que a sensação de incompreensão “dilata” o sofrimento.

Porque é abstrata e deixa o indivíduo refém de si mesmo, a dor mental é uma experiência de solidão, mas é igualmente um apelo ao outro!

Ao contrário de sinal de perturbação, a dor psíquica pode ser um sinal de saúde mental. Quando, em situação de sofrimento extremo, o indivíduo ainda é capaz de reconhecer que toda a sua integridade pode estar a ser posta em causa, que o modo como se sente, age e pensa e se relaciona com os outros está a ser contaminado, hipotecando o seu bem-estar, a dor mental está a servir como sinal de alarme e é a razão pela qual se pede ajuda.

É essencial que este indivíduo possa encontrar um espaço de escuta, onde não existam preconceitos, nem juízos de valor, de modo a poder verbalizar as experiências que o conduziram ao “sítio mental” onde se encontra.

A ajuda constitui-se  numa companhia para uma viagem, que se faz sempre em retrospetiva, procurando a origem da dor, tentando percebê-la e refletir sobre ela. Procura-se a extensão e a abrangência do sofrimento que se alastrou, para ir encontrando, dentro da pessoa que pede ajuda, as características, os instrumentos e as ferramentas que lhe vão permitir elaborar aquelas dificuldades e ajudar a gerir dores mentais futuras, porque podemos arriscar dizer… elas nunca vão deixar de existir. 

Ana Beatriz Condinho (psicóloga clínica)

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