Foi reconhecido como um direito humano, mas ainda há uma grande diferença entre os que a têm e os que a não têm. A possibilidade de este bem passar a mercadoria é uma tentação apetecível. A água pode ser privatizada?

Visto do espaço, parece muito cheio mas, bem-feitas as contas, o copo está meio vazio. Apesar de ocupar dois terços da superfície da Terra, só 2,5% da água é doce e desta nem toda está pronta a beber.

Para nós, portugueses, a escassez de água na torneira ainda não é um problema grave, mas a seca é já uma dificuldade real noutras zonas do planeta e há quem antecipe que será a crise da água a que mais pode afetar a sobrevivência humana.

As disputas pela água têm gerado conflitos, mais ou menos violentos. O conflito Israelo-Palestiniano é o mais mediático e um exemplo que perdura, agudizado precisamente pela escassez de água de um lado, face à existência de água subterrânea nos chamados territórios ocupados.

Além de escassa, só 10% da água consumida é que se destina a uso humano. Os restantes 90% serão usados na indústria (20%) e na agricultura (70%). As regiões de seca crónica estão a aumentar e a água poderá mesmo ser o problema crucial do mundo do século XXI.

Os ambientalistas são radicais e denunciam que a água tem os dias contados, em oposição ao mito da abundância e que vende a ideia de que a água nunca acabará. Mas, para outros, a água é um bem quase inacessível. Ainda há uma diferença, entre os que a têm e os que a não têm.

A relatora especial das Nações Unidas para o Direito à Água e ao Saneamento é, coincidentemente, portuguesa e denuncia que, por dia, ainda morrem 7500 pessoas devido à falta de saneamento básico, 5 mil são crianças com menos de 5 anos. Onde estão? Nos países pobres. Andamos preocupados com o quê?

Se é escassa, significa que vale dinheiro, logo, começa a haver apetência para lhe colocar um preço. Os valores que a água engarrafada movimenta hoje são uma gota muito pequena, nesse mercado que se pode formar, se a água passar a ser um bem negociável. Há tentações para ser privatizada, o que já acontece em alguns países do mundo e em alguns municípios portugueses.

Quando a água deixar de ser um recurso natural público e um direito de todos, passa a ser um produto e, neste caso, com um valor idêntico ao do ouro ou do petróleo, aquilo que se designa por comoditização – passagem de um bem a mercadoria. O Banco Mundial começou esta experiência em 1990, convencendo países descapitalizados de que privatizar a água seria uma boa forma de arrecadar fundos. E ainda não terá desistido.

Há cinco anos, a assembleia-geral das Nações Unidas reconheceu o direito à água e saneamento como um direito humano, idêntico a todos os outros direitos fundamentais. Curiosamente, passados estes anos a União Europeia ainda não tomou uma posição oficial sobre a privatização ou não da água. A defesa deste novo direito humano tem sido feita pelos cidadãos.

Mas que quantidade de água consome cada um de nós? A chamada água virtual leva as contas muito para além do que cada um consome quando abre a torneira para beber um copo de água. Se comer um bife ao almoço, o consumo de água virtual sobe para quantidades inacreditáveis, porque se acrescenta a água que foi necessária para criar o gado, que veio originar o bife, ou seja cerca de 700 litros de água para produzir um bife de 150 gr. Para completar esta contabilidade, também devemos juntar o que vestimos e o tipo de material que escolhemos para calçar. Se optar por sapatos de couro, terão sido precisos 800 mil litros de água para produzir um par, enquanto a água utilizada na cadeia produtiva que leva a 1 kg de arroz poderá rondar os três mil litros. As contas não são nossas, foram feitas pela UNESCO.

Deixar um Comentário