
Vegetais que crescem em edifícios, veículos que circulam em piloto automático e a contínua automação de trabalho manual e intelectual já não é ficção científica, é tão só o futuro que se começa a construir hoje
Há pelo menos 400.000 anos atrás, aprendemos a controlar o fogo. Há 6.000 anos atrás, a roda. Há 400 anos, a eletricidade. Há 80 anos, o primeiro computador e desde então, o progresso tem sido tão rápido que é impossível mencionar todos os avanços importantes.
A ficção científica foi desde sempre pródiga na exploração dessa fronteira, muitas vezes inspirando cientistas que, mais tarde, investigaram e desenvolveram tecnologias inovadoras, como por exemplo Asimov e a área da Robótica, Júlio Verne e H.G.Wells e os foguetões e exploração espacial, Leonardo da Vinci e os helicópteros, Jack Steele e a Biónica, entre muitos outros.
Para avançarmos enquanto civilização, atingindo alguns objetivos, como a sustentabilidade ambiental, longevidade com qualidade de vida, ou presença interplanetária, há todo um conjunto de áreas que já estão a ser otimizadas e desenvolvidas de raiz. Há exemplos desse futuro que começou a ser construído hoje e agora.
Plantações suspensas
Nos últimos anos tem existido cada vez mais investigação na área da produção de uma agricultura sustentável, principalmente à volta das plantações aeropónicas, nas quais as raízes estão suspensas e alimentadas por uma névoa de gotículas de água com nutrientes. As vantagens desta técnica são o menor consumo de água (menos 95%), maior crescimento das plantas no mesmo tempo (+75% de biomassa), podendo ser utilizadas configurações de quintas verticais ou mesmo dentro de edifícios recorrendo a iluminação artificial. Nestas últimas, deixam de ser necessários pesticidas, perde-se a dependência das condições atmosféricas e diminui-se, em muito, o custo de automatizar todo o processo recorrendo à robotização.
Estas tecnologias estão a ser desenvolvidas pela NASA e são utilizadas na IIS (International Space Station), mas já nos permitem imaginar um futuro em que os vegetais não crescem em distantes e extensos campos, mas sim em ambientes urbanos, no edifício ao lado do nosso, ou mesmo em nossa casa.
Funções humanas em extinção
Os motores vieram substituir os músculos na realização do trabalho e os robots (pequenos motores controlados por computador e com grande flexibilidade nas tarefas que podem realizar) ocuparam funções até agora executadas por humanos, desde posições em fábricas e linhas de montagem, controlo de portagens e fronteiras, até à manipulação de frascos e pipetas em laboratórios de investigação.
O governo norueguês produziu um relatório relativo a esta temática chamado Computerization and the Future of Jobs in Norway”, onde concluiu que 1/3 dos empregos noruegueses é altamente suscetível de ser automatizado, através do recurso a robots e computadores e isto já a partir da próxima década.
Serão substituídos não só os trabalhos manuais, ou intelectuais que sejam repetitivos e que não requeiram criatividade e destreza (como já acontece na execução de operações matemáticas em folhas de cálculo, criação de resumos noticiosos, contagem de células num hemograma, etc.), mas também atividades que envolvam movimento e transporte, como a distribuição de correio. Muitas destas profissões que vão desaparecer serão substituídas por outras que ainda nem nos é possível imaginar. Quem, há 20 anos atrás, imaginaria que haveria um negócio e pessoas dedicadas a fazer SEO – Search Engine Optimization – ou a otimizar sites para que estes apareçam de uma forma mais relevante nas pesquisas que se fazem online?
Carros sem condutores
Carrinhas de correio, camiões de carga, táxis ou veículos pessoais são hoje maioritariamente operados por pessoas, condutores, além de consumirem derivados de petróleo. A transição para veículos híbridos já está a acontecer e a hegemonia dos carros pessoais puramente elétricos será o próximo passo.
Deixará de ser necessário fazer mudanças de óleo, de correias, e os custos de manutenção reduzir-se-ão devido à ausência de componentes como veios de transmissão ou caixas de velocidades. Quando a energia para carregar as baterias resultar de energias renováveis não poluentes, a sustentabilidade do planeta aumentará.
Hoje, a concentração de CO2 na atmosfera está em níveis máximos históricos e a capacidade do oceano de o absorver continua a existir, mas este é um processo que tem tornado o mar ligeiramente mais ácido, com efeitos nefastos para os ecossistemas delicados, mas esse será outro tema que o futuro também terá de resolver.
Tão ou mais importante que os veículos elétricos, é a capacidade de eles conduzirem sem intervenção humana. Cerca de 1% da população trabalha como condutor de veículos automóveis de cargas, aumentando para 3% quando se incluem taxistas e todas as profissões de suporte a estas atividades. A Daimler está a preparar um camião com piloto automático para autoestradas. O veículo tem a capacidade de se manter na sua faixa de rodagem, não ultrapassa veículos mais lentos, alerta o condutor se achar que precisa da intervenção dele, e encosta lentamente à berma se este não responder. Esta versão conservadora da automação irá permitir melhorar, em muito, a eficiência dos transportes e reduzir o risco de acidentes. Num ponto mais extremo do espectro da automação da condução de veículos, temos o Google Car, com protótipos a serem testados desde 2012. Aproximamo-nos rapidamente do dia em que ao entrar no carro, podemos optar apenas por indicar o destino e usar o tempo da viagem para outras tarefas.
A Uber é uma empresa que tem feito algumas capas de jornais portugueses, devido ao vazio legal, mas também pelas críticas tecidas pela ANTRAL. Na prática, este é um sistema que permite reservar transporte equivalente a táxi, a partir da internet, com o trajeto registado em GPS e o pagamento feito automaticamente por transferência bancária.
Juntando os conceitos de self-driving cars, e Uber ou equivalente, é fácil imaginar que daqui a alguns anos, teremos carros que se conduzem sozinhos, e que após chegarmos ao destino, podem ser rentabilizados através de transporte de passageiros como táxi, de forma autónoma e sem qualquer tipo de intervenção humana.
Por detrás de todos estes avanços, há um outro lado que ainda só está a incomodar os Sociólogos e economistas. Ou seja, a incorporação de tecnologia e automação nos processos de produção deveria permitir ao Homem ter jornadas de trabalho mais curtas e ainda assim aumentar a produtividade. No entanto, na prática, o que acontece é que estes aumentos de produtividade são utilizados pelas empresas para apresentarem preços mais competitivos, sustentando isto na redução de custos através do despedimento dos funcionários agora redundantes.
Este modelo económico tem agravado a desigualdade social e prevê-se que o continue a fazer de uma forma cada vez mais extrema. O futuro da Humanidade vai exigir resposta a este tipo de novos desafios políticos e económicos, despoletados pelo avanço da ciência.
Paulo Barbeiro
(engenheiro biomédico)
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