Ainda esperamos que as meninas sejam delicadas e bem comportadas? E que os rapazes sejam fortes, competitivos e pouco emocionais? Ou andamos todos a fingir que somos fortes e perfeitos?
Será que a música Boys Don’t Cry, da banda britânica The Cure, lançada em 1979, continua atual? A letra exprime a proibição social de os homens mostrarem vulnerabilidade emocional. Quase 50 anos depois, será que os rapazes têm verdadeira permissão — familiar, educativa e social — para chorar?
Na semana passada estive com um adolescente belga, Augustin, de 17 anos, que acompanho há cerca de 10 anos. Como habitualmente, o início da sessão decorreu com um dos pais. Nesse dia, foi o pai quem o acompanhou. Quando perguntei qual o objetivo da consulta, respondeu-me que gostaria que eu trabalhasse com o filho “o facto de não conseguir controlar o choro” em frente aos colegas da escola. Acrescentou ainda que, quando o Augustin era invadido por emoções intensas e fechava-se sobre si próprio, ignorando o impacto que isso tinha nos outros — nomeadamente no pai, que por vezes tinha de o ir buscar à escola.
Na minha cabeça organizei rapidamente um plano de sessão. Pensei em trabalhar competências emocionais e sociais: a regulação emocional — diminuir a intensidade da emoção — e a adaptação ao contexto social, neste caso, o ambiente escolar.
Com um plano aparentemente claro e cheia de certezas, começámos por desenhar as suas emoções. Quando chegámos ao choro, ouvi algo que nunca tinha escutado daquele adolescente: uma clareza emocional desarmante.
“Parem de me tentar mudar. Eu só quero ser eu próprio. Porque é que tenho de controlar o choro? Acha melhor eu ser como os adultos à minha volta, que choram e depois engolem a emoção e fingem que estão bem? Ou como o meu pai, que eu nunca vi chorar? Na escola, os que choram ou são gays ou têm um problema mental. Por isso afastei-me dos meus amigos. Eu só quero ser eu próprio.”
Naquele momento, engoli as minhas certezas — e também alguma vergonha. Percebi que eu própria estava a olhar para aquele rapaz através do filtro da minha educação e do que aprendi como “socialmente aceitável”.
A mensagem da música Boys Don’t Cry continuava viva. Também em mim.
“I tried to laugh about it
Hiding the tears in my eyes
’Cause boys don’t cry.”
“Tentei rir-me disso
Escondendo as lágrimas nos meus olhos
Porque os rapazes não choram.”
Graças a este adolescente, comecei a olhar para dentro e a questionar o que mantém viva esta crença — em nós, nas famílias e na cultura.
O transgeracional
Que modelo tivemos das nossas mães? Cuidadoras silenciosas? Disponíveis para todos menos para si próprias? Mulheres compreensivas, resilientes, discretas, que aprendiam a aguentar sem se queixar?
E os nossos pais? Homens trabalhadores, fortes, orientados para a ação, emocionalmente ausentes? Homens que protegiam, sustentavam e resolviam — mas raramente mostravam fragilidade?
Sem nos apercebermos, crescemos rodeados de papéis emocionais bem definidos.
As mulheres cuidam e aguentam. Os homens trabalham e são fortes. Quantos destes padrões continuamos a repetir?
Ainda esperamos que as meninas sejam delicadas e bem comportadas? E que os rapazes sejam fortes, competitivos e pouco emocionais?
O escolar
A escola também transporta heranças culturais. Continuamos a associar tranquilidade e obediência às raparigas e agitação aos rapazes? Será que muitos rapazes são vistos primeiro como “difíceis” antes de serem compreendidos emocionalmente? Será que, por não serem sossegados, recebem mais diagnósticos de PHDA e, consequentemente, tomam mais Ritalina do que as raparigas? E será que o modelo escolar atual responde verdadeiramente às necessidades emocionais e comportamentais dos rapazes?
O cultural
Vivemos numa sociedade que valoriza desempenho, controlo e produtividade. A vulnerabilidade continua, muitas vezes, a ser confundida com fragilidade. Não será o contrário? Não será que a força aparente esconde uma grande fragilidade? E que a vulnerabilidade manifestada esconde uma grande força ?
Os homens aprendem cedo que mostrar tristeza pode significar perder estatuto, aceitação ou pertença. E muitos rapazes crescem a acreditar que, para serem aceites, precisam esconder partes importantes de si próprios.
Nós próprios
Talvez a pergunta mais difícil seja esta: Conseguimos aceitar a nossa própria vulnerabilidade? Ou andamos todos, como dizia o Augustin, a fingir que somos fortes e perfeitos? Porque, se um rapaz aprende que não pode chorar, aprende também que não pode mostrar quem é. E quando alguém cresce atrás de máscaras emocionais, torna-se mais difícil criar relações autênticas — consigo próprio e com os outros. Talvez o desafio não seja ensinar os rapazes a controlar o choro, mas ensinar a sociedade a tolerá-lo e a valorizá-lo.
Se nós, adultos, estamos fechados ao choro, como podemos querer que os rapazes sejam abertos ao choro dos outros? Talvez precisemos de menos vergonha emocional e de mais espaço para sentir. E talvez um rapaz que pode chorar sem humilhação se torne, mais tarde, um homem mais inteiro, mais empático e mais livre.
E sim, boys also cry
(Os rapazes também choram).
Cláudia Quintans
(Psicóloga clínica; OP n.º 15640)

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