Centro Cirúrgico de Coimbra é uma ideia viva há 27 anos
A grandeza de uma instituição não se mede pela dimensão dos seus edifícios, pelo número dos seus equipamentos ou pela sofisticação da sua tecnologia. Mede-se pela luz que é capaz de fazer nascer na vida das pessoas
Quando inaugurámos o Centro Cirúrgico de Coimbra, nem todos acreditaram no projeto. Houve quem o considerasse uma ousadia excessiva. Houve quem o julgasse ambicioso demais para o seu tempo. Alguns, com ironia ou cepticismo, chamavam-lhe Titanic, como se o seu destino estivesse traçado antes mesmo de iniciar a viagem.
Mas todas as obras que aspiram a transformar a realidade começam por desafiar aquilo que parece possível. O futuro raramente nasce do consenso; nasce da coragem de avançar apesar da dúvida. E o Titanic não afundou.
Pouco a pouco, aquilo que parecia apenas uma aposta tornou-se realidade. O Centro Cirúrgico de Coimbra ganhou vida. Corredores antes vazios encheram-se de passos, vozes, decisões e esperança. Equipas que não se conheciam aprenderam a trabalhar em conjunto. Diferenças transformaram-se em complementaridade. O que era um projeto tornou-se uma comunidade.
Durante algum tempo, pensei nele como um quartel-general. Não pela ideia de combate, mas pela disciplina, pela organização e pela capacidade de resposta que diariamente testemunhava. Ainda assim, essa metáfora nunca me satisfez por completo. A saúde não é uma guerra. Não existem inimigos a derrotar nem territórios a conquistar. Existem pessoas vulneráveis que procuram ajuda e profissionais que assumem a responsabilidade de cuidar.
Foi então que encontrei uma imagem mais próxima daquilo que este lugar verdadeiramente representa: uma catedral. Não uma catedral religiosa, mas uma catedral humana.
As grandes catedrais nunca foram construídas por uma única pessoa. São obras coletivas, erguidas ao longo do tempo pela inteligência, pelo esforço e pela dedicação de muitos. Cada geração acrescentou uma pedra, uma coluna, um arco. Poucos chegaram a contemplar a obra concluída. Ainda assim, continuaram a construir, porque sabiam que faziam parte de algo maior do que eles próprios.
Também aqui é assim. Todos os dias, médicos, enfermeiros, engenheiros, técnicos, administrativos e tantos outros profissionais acrescentam algo que permanecerá para além da sua presença. Cada gesto de competência, cada decisão responsável, cada acto de cuidado torna esta obra um pouco mais sólida, um pouco mais humana. Mas as catedrais não vivem apenas da pedra. Vivem da luz. E esta luz precisa de um vitral para que seja projetada.

No Edifício 2 do Centro Cirúrgico de Coimbra existe um vitral criado pelo Professor João Aquino Antunes. Muitos contemplam-no como uma obra de arte. Eu vejo nele algo mais: um retrato silencioso daquilo que somos.
Nenhum vitral nasce de uma única peça de vidro. A sua beleza resulta da união de fragmentos diferentes. Cada um possui a sua forma, a sua cor e a sua transparência. Separadamente, parecem incompletos. Alguns podem até parecer insignificantes. Contudo, quando a luz os atravessa, cada fragmento revela a sua função e o seu sentido. É então que surge uma imagem que nenhum deles poderia criar sozinho.
O mesmo acontece numa instituição de saúde. Cada pessoa que aqui entra traz consigo uma história única. Uma esperança própria. Um receio que raramente consegue expressar por inteiro. Uma forma singular de compreender a vida, a doença e o sofrimento. Nenhuma dessas histórias é igual a outra. E, no entanto, todas merecem a mesma atenção, o mesmo respeito e a mesma dignidade — mesmo quando a fragilidade do momento torna difícil ouvir, compreender ou aceitar aquilo que a vida lhes está a dizer.
Talvez o verdadeiro desafio da medicina não seja apenas tratar a doença. Talvez seja reconhecer a singularidade irrepetível de cada ser humano que procura a nossa ajuda. Compreender que cuidar não significa reduzir alguém a um diagnóstico, mas encontrar a pessoa que existe para além do corpo físico. Porque a saúde, no fundo, não é apenas a ausência de doença. É a possibilidade de continuar. Continuar a amar. Continuar a sonhar. Continuar a construir. Continuar a ser quem é. Por isso que o nosso trabalho possui uma dimensão que ultrapassa a técnica. Cada cirurgia, cada consulta, cada gesto de cuidado participa numa realidade maior: a preservação daquilo que permite a cada pessoa viver plenamente a sua humanidade.
Hoje, quando observo o vitral do Professor João Aquino, já não vejo apenas vidro colorido atravessado pela luz. Vejo os milhares de doentes que confiaram em nós. Vejo as famílias que encontraram esperança. Vejo os profissionais que dedicaram talento, energia e tempo a esta missão comum. Vejo uma comunidade. E compreendo que a verdadeira grandeza de uma instituição não se mede pela dimensão dos seus edifícios, pelo número dos seus equipamentos ou pela sofisticação da sua tecnologia. Mede-se pela luz que é capaz de fazer nascer na vida das pessoas. Tal como num vitral, essa luz não pertence a nenhuma peça isoladamente. Nasce do encontro entre todas elas. É nesse encontro que uma coleção de fragmentos se transforma numa obra.
Talvez seja isso que o Centro Cirúrgico de Coimbra verdadeiramente é. Não apenas um edifício. Não apenas uma organização. Mas uma obra coletiva de humanidade. Uma obra que continua a ser construída todos os dias e que caminha, paciente e confiantemente, ao encontro da luz.
Porque, tal como em todos os vitrais, também nós existimos para deixar passar a luz que dá sentido ao cuidado, dignidade à fragilidade e esperança à vida. E talvez seja essa a nossa missão mais profunda: não apenas curar quando é possível, nem apenas aliviar quando é necessário, mas ajudar cada pessoa a reencontrar a luz que lhe permite continuar o seu caminho. Esse é, afinal, o verdadeiro trajeto da luz.
António Travassos
(Presidente do Conselho de Administração)

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