— Há riscos que podemos modificar

O tsunami cinzento estava anunciado e já se instalou. Mas não temos de ficar sentados à espera da demência. Selecionámos 12 fatores com impacto que podem reduzir em 40% as probabilidades. Temos 8 anos para provar que as estimativas erraram

A idade é o principal fator de risco para o desenvolvimento de demência e, particularmente, para a doença que representa pelo menos 60% de todos os casos – a Doença de Alzheimer. O número de pessoas com demência e com Doença de Alzheimer duplica a cada cinco anos após a sexta década de vida e esta relação estreita com a idade, associada ao envelhecimento progressivo das populações (designado como o greytsunami), justifica o crescimento continuado do número de casos de demência degenerativa, apontada até recentemente como a epidemia do século (“a epidemia silenciosa”).

De acordo com as estimativas mundiais, em 2015 existiriam 46,8 milhões de pessoas com demência, um número que poderá duplicar em 2030, posicionando esta doença como a segunda maior causa de morte em pessoas com mais de 70 anos. Portugal é um dos países mais envelhecidos da Europa e do mundo, estimando-se que em 2050, 32% dos portugueses terão uma idade superior ou igual a 65 anos e destes, 11% mais de 80 anos. Apesar de existir ainda um grande défice de informação sobre o panorama da demência em Portugal, os números atuais já ultrapassaram os 160.000 casos.

Precisam-se por isso de políticas de saúde, intervenções sociais e, sobretudo, atitudes individuais que mitiguem estes números, constituindo-se como verdadeiras estratégias preventivas de demência.

Já sabemos como? Sabemos. Promovendo um envelhecimento saudável nos domínios físico e mental. E como é que isso se consegue? As medidas gerais vêm sendo repetidas pelas autoridades de saúde e todos nós as conhecemos de cor: enriquecimento cultural, melhor nutrição, hábitos de vida e de sono mais saudáveis e melhorar os cuidados de saúde.

O que falta? Pôr as medidas em prática todos os dias e ao longo da vida.

E se o fizermos, qual será o impacto efetivo destas medidas? De acordo com dados científicos recentes, poderemos reduzir até 40% os casos de demência. E por onde começar? Num relatório recente, a comunidade científica, propõe que nos concentremos pelo menos em 12 fatores de riscos modificáveis:

  1. Combater a baixa escolaridade e a iliteracia, fortalecendo a capacidade cognitiva do nosso cérebro ao longo da vida. Tecnicamente este enriquecimento chama-se reserva cognitiva e, quando é estimulada, o nosso cérebro torna-se resistente ao envelhecimento e à doença;
  1. Melhorar os nossos sentidos, nomeadamente a audição e a visão, abrindo-nos para o mundo e mantendo-nos ativos socialmente;
  1. Combater o isolamento e participar ativamente no nosso meio social e cultural ajuda a manter o cérebro ativo em todos os seus domínios e funções, reforçando a reserva cognitiva. De entre estas, a comunicação (linguagem) é um dos principais modeladores e aceleradores da nossa inteligência e, “conversar”, é provavelmente a melhor e mais natural terapia de estimulação cognitiva e de enriquecimento da memória;
  1. Combater a depressão, não só porque biologicamente a depressão e a demência se associam e potenciam, como também porque a depressão tem um impacto negativo na cognição e conduz ao isolamento social;
  1. Prevenir e tratar a hipertensão arterial, porque é o principal fator de risco para o AVC e para a demência vascular (a segunda causa mais importante de demência), mas também porque a lesão vascular é o componente patológico da Doença de Alzheimer eventualmente mais acessível a medidas preventivas;
  1. Prevenir e tratar a diabetes; a diabetes do idoso (designada por tipo II) é uma doença sistémica em que existe uma resistência à insulina, que no cérebro se manifesta por uma ineficiente utilização da glicose essencial a toda a atividade mental. Este mecanismo é comum à Doença de Alzheimer, de tal forma que esta doença é considerada por muitos a diabetes tipo III. Estão atualmente a decorrer ensaios com alguns fármacos antidiabéticos como potenciais estabilizadores de Doença de Alzheimer;
  1. A obesidade, enquadrada no conhecido “Síndrome Metabólico”, é um dos males mais recentes da nossa civilização. Para além de constituir um fator de risco vascular, a obesidade conduz a um estado pro-inflamatório que atua como acelerador de processos degenerativos típicos da Doença de Alzheimer. Um estudo recente indica que uma redução de cerca de 2Kg, em pessoas com excesso de peso, melhora a atenção e a memória;
  1. Inatividade e baixa atividade física: tal como a obesidade, o sedentarismo e a baixa atividade física predispõem para a demência. Estudos recentes indicam que exercício físico vigoroso e regular (2-5h por semana) tem um impacto positivo na cognição e reduz o risco de demência nos 10 anos seguintes;
  1. O consumo excessivo de álcool é reconhecido – desde há seculos – como causador de dano cerebral (nomeadamente atrofia das áreas da memória), declínio cognitivo e demência. Estudos recentes confirmam que este fator de risco se associa sobretudo à demência com início mais precoce (antes dos 65 anos). Por outro lado, demonstrou-se que o consumo ligeiro (menos de 21 unidades por semana – menos de 30ml de álcool /dia), pode estar associado a um menor risco de demência;
  1. Consumo de tabaco: fumar mata precocemente o que introduz um enviesamento no risco de demência que é mais frequente nos idosos. Mesmo assim, as estatísticas são claras: parar de fumar depois dos 60 anos e por mais de 4 anos, reduz drasticamente o risco de demência nos 10 anos subsequentes, estimando-se um peso de 5% na redução global do risco de demência. Lembrar que os fumadores passivos (incluindo as crianças) também são sofredores passivos;
  2. O Traumatismo de Crânio (TCE) aumenta o risco de demência e de Doença de Alzheimer proporcionalmente ao seu número e à gravidade. O TCE-demência decorre predominantemente de acidentes com veículos motorizados (muito prevalentes no nosso país), mas também se associam a quedas, concussões no desporto (bem estabelecido para os boxeurs, com a chamada demência pugilista), na guerra (muito estudados nos veteranos da guerra do Vietname e Iraque). Alguns estudos sugerem algum benefício da medicação continuada com estatinas na prevenção da demência;
  1. Poluição do ar: está confirmado que os ambientes poluídos aumentam o risco de doença vascular cardíaca e cerebral (AVC), ambas patologias que aumentam o risco global de demência. No entanto, certos poluentes estão a ser diretamente relacionados com o risco de demência degenerativa e Alzheimer, como sejam o óxido de nitrogénio, produzido industrialmente e partículas finas ambientais que resultam da combustão de veículos e carvão. O risco parece ser maior em países com elevados graus de poluição, onde as comunidades mais desfavorecidas parecem estar particularmente expostas.

Combater estes fatores de risco é uma missão das autoridades de saúde (medicina preventiva) e das sociedades (promovendo ambientes e estilos de vida mais saudáveis e com enriquecimento cultural), mas é sobretudo um apelo à nossa vontade.

Isabel Santana
(Médica, Neurologista)

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