
Traça objetivos, não se resigna, sonha e não se deixa limitar pelos caminhos percorridos a bordo de uma cadeira com rodas. Diferente? “Acho que não, tenho os meus problemas, quem os não tem, não é por aí”. Bernardo Lopes (Becas), um rapaz divertido e simpático, perfeccionista e teimoso
Fomos ter ao nº 29 da Rua da Alegria. É uma rua sem saída, mas na cabeça de Bernardo Lopes, as ruas não são sempre assim. Foi uma espécie de reencontro porque tínhamos falado do Bernardo Lopes (Becas, como ele prefere) há três anos atrás, quando já tinha conquistado três medalhas de ouro em torneios internacionais. Seria o sucessor do campeão de boccia, António Marques. A esperança mantém-se.
Desta vez, conversámos frente a frente. Quisemos saber o que o move, o que sonha, e o que sente. Na página pessoal do Facebook apresenta-se como “um rapaz divertido e simpático”. O Becas é muito mais. Bernardo Lopes nasceu com paralisia cerebral. Tem perturbação do controlo da postura e movimento, que se traduz num esforço excessivo para realizar determinados movimentos. É isso que explica o uso de cadeira de rodas, naquele dia usava a manual, porque a elétrica estava avariada. Por fora é assim que o poderemos ver, por dentro é preciso conversar e conhecê-lo. A rendição acaba por ser natural.
Quem não o conhece atreve-se a dizer “coitadinho”, «às vezes, é difícil ouvir essas coisas», sim, porque ainda há quem o pense e também quem o diga. «Não são só as pessoas mais velhas, os jovens também». E respondes alguma coisa? «Não, começo a rir e penso naquilo que faço. Se essas pessoas estivessem na minha situação, sei que não fariam nem metade».
E o que faz este jovem de 22 anos? Tudo ou mais que os outros. Claro, que as saídas não são fáceis, porque as bordas dos passeios ainda estão muito subidas ou porque nem sempre existem estruturas adaptadas, «é um bocado chato, é verdade, mas com esforço e com a pessoa certa ao nosso lado, não há limitações». Sair da zona de conforto é a sua especialidade, «estou habituado a isso, porque tem de ser mesmo assim. O conforto é só para aqueles que estão bem fisicamente, as pessoas que estão mal e que querem ser alguém neste país, têm de sair da zona de conforto. É obrigatório mesmo».
Achas que tens de ter o dobro do esforço de alguém que tem a tua idade? «Exatamente, não é o dobro, será o triplo ou o quádruplo. Para ter 14 a uma disciplina eu tenho de trabalhar para um 20. Não por culpa dos professores, mas porque ainda existe um problema de mentalidade. Sei que não é de propósito, é sem querer».
Bernardo Lopes admite que, hoje, há mais abertura para a diferença e, nuns casos, os professores conseguem adaptar os materiais, noutros não conseguem, «mas eu tenho de estudar na mesma e preciso de materiais para estudo. Não tiro apontamentos e não consigo ler durante muito tempo, é a minha mãe que me lê toda a matéria de estudo. Eu ouço, memorizo e depois faço o teste ou exame». A avaliação é sempre oral. «Eu poderia escrever no computador, mas os professores dizem que seria um processo lento e preferem que eu seja avaliado com um ditado». O processo de aprendizagem não é o mesmo, o método de estudo também não e a forma como é avaliado também é diferente.
«Os meus colegas acham que tenho vantagem em fazer o exame com um ditado, mas eu acho que não. Eu tenho de parar o meu raciocínio para que a outra pessoa, a que escreve, me acompanhe. Quando o exame é escrito, eu posso reler, apagar, voltar atrás… quando as respostas são ditadas isso é muito mais difícil».
Sentes-te diferente dos teus colegas de escola? «Acho que não. Como toda a gente, tenho os meus problemas, quem os não tem? Eu tenho uns problemas e os outros têm outros. Não é por aí, acaba por ser tudo igual». Os amigos e colegas de escola conhecem as suas qualidades e os defeitos. «Sei que alguns colegas veem-me como um exemplo a seguir, outros nem por isso, porque pensam que sou demasiado perfeccionista e, nalgumas coisas, sou mesmo, e isso pode complicar um pouco, porque também sou um bocado teimoso».
Bernardo Lopes é uma pessoa com objetivos, traça-os logo no início do ano letivo, seja para a escola, seja para o boccia. «Como tenho estágios da seleção e metas para atingir na escola, o perfeccionismo, às vezes, complica tudo um bocado. Tenho disciplinas em que considero que tirar um 14 é suficiente, mas tenho outras em que eu quero ter 18 ou 19 e outras em que sei que só poderei tirar 10. Não posso ser bom a todas», assume.
Para cumprir o objetivo que traçou para este último ano letivo, Bernardo Lopes adiou um sonho. «Era um sonho e objetivo de vida, agora, se calhar já não é. Fui obrigado a pensar na minha pessoa. Não apaguei o sonho, ele ainda está cá dentro, mas agora os objetivos passam por terminar os estudos e ser feliz».
E és feliz? «Sou feliz sim, quem passa pelas dificuldade que eu já passei e está sempre pronto a dar a cara por causas, sabe que os objetivos são para se cumprirem. Sempre. E quanto mais dificuldades surgem, mais vontade tenho de os cumprir. Aprendi isso com uma pessoa que já morreu. José Barros, um grande homem».
Há um senão em todo este percurso, Bernardo Lopes ainda não conseguiu convencer o pai biológico das suas capacidades e «isso é das coisas mais difíceis de explicar. Não tenho uma boa relação com o meu pai, de todo, não tenho. O meu pai ainda pensa com a mentalidade antiga e diz-me, “tens paralisia cerebral e por isso não podes fazer certas coisas”. Eu mostro-lhe que posso».
Será um problema de aceitação da diferença, por ameaça da normalidade ou um problema que as pessoas têm por não saberem lidar com a diferença? «Não, nada disso, é um problema de mentalidade. Noutros países, como Inglaterra ou República Checa, as pessoas lidam de maneira diferente. As leis são explícitas e está tudo adaptado». Pensam nos outros. «Em Portugal basta ir à Segurança Social, porque precisamos de qualquer coisa, e parece logo que estamos a querer roubar meio planeta, claro que o país não tem dinheiro, mas não é só por aí».
E o que se pode fazer, quais os conselhos que se pode dar às pessoas que ainda não aceitam a diferença? «Bastava que andassem um dia numa cadeira de rodas, só isso. Mas a cadeira não podia ser elétrica, tinha de ser manual». Fica a sugestão.
Uma fábrica de campeões
«Esta é a minha motivação, ser o melhor do mundo em boccia, mas as pessoas não compreendem e pensam que digo isso para me tornar importante». O que falta? «Treinos e sorte com as lesões». «Eu tinha esse sonho, de ser o melhor do mundo em boccia, se calhar já não tenho». O último ano não foi exemplar, uma lesão (tendinite), justificou uma paragem e a necessidade de apoio médico. Mas, mesmo com os planos adiados, «nunca deixei de fazer o meu melhor».
E o que é isso do boccia? O jogo é antigo, terá inspirado outros jogos, como a petanca, e disputa-se com 13 bolas. São 6 bolas azuis, contra 6 bolas vermelhas e ganha quem estiver mais perto da bola alvo, a bola branca. O Bernardo Lopes pertence à categoria BC1 e por isso pode competir com a ajuda de um assistente, que pode ajustar ou estabilizar a cadeira de rodas do jogador e entregar-lhe a bola que irá lançar.
É um desporto de precisão e exige habilidade, agilidade e inteligência para o desenvolvimento das jogadas. O boccia é uma modalidade paraolímpica e Bernardo Lopes é atleta da Associação de Paralisia Cerebral de Coimbra, uma espécie de fábrica de campeões paralímpicos e internacionais. O boccia é apenas um exemplo, há outros desportos que têm trazido medalhas discretas para Portugal. O presidente da República ainda não tinha lançado a moda de atribuir medalhas a quem tão bem representa Portugal. Se a moda da distinção já tivesse pegado há mais tempo, a Associação de Paralisia Cerebral, seria uma verdadeira “papa medalhas”.
Há um historial. António Marques, outro atleta da Associação de Paralisia Cerebral de Coimbra, mantém um palmarés supermedalhado e difícil de igualar. Foi no boccia que já conquistou 7 medalhas de ouro, 7 medalhas de prata e 6 medalhas de bronze.
Quantos portugueses têm este palmarés? O boccia é uma entre outras, mas será das atividades desportivas que mais medalhas já trouxe para Portugal, mais de 100… entre competições nacionais e internacionais. Junte-se ainda o atletismo, o ciclismo ou o futebol…
Na Associação de Paralisia Cerebral de Coimbra, Bernardo Lopes continua a ser a promessa de poder conquistar mais medalhas.
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