O meu Natal não é uma data: é um intervalo de consciência. Um território onde memória e esperança se entrelaçam, onde o tempo se curva para escutar o que fomos e o que ainda ousamos ser

Neste Natal, penso em ti — mesmo que não existas, mesmo que sejas apenas uma ideia, eco, ausência habitada, metáfora daquilo que ainda procuro em mim. Talvez o existir de quem não existe seja a forma mais pura do mistério: a revelação silenciosa de que tudo o que é verdadeiro se exprime em presença e para além dela.

O meu Natal não é uma data: é um intervalo de consciência. Um território onde memória e esperança se entrelaçam, onde o tempo se curva para escutar o que fomos e o que ainda ousamos ser. É o instante em que o humano se recorda de si mesmo — e, por um breve momento, se reconhece como parte da luz que o criou.

Antes de mim, o Natal era uma festa valorizada – comum e necessária. Hoje, as festas multiplicam-se como espelhos fragmentados: cada um celebra o seu próprio reflexo, esquecendo o rosto do outro. Há festas deslumbrantes e há a anti festa — a da solidão ornada de brilho, a da miséria coberta de promessas. Mas, em todas, mesmo nas mais desfiguradas, pulsa um mesmo anseio essencial: o de reencontrar o humano, de restaurar o sentido, de tocar a centelha do divino que ainda resiste em nós.

A vida, o Natal, o quotidiano são formas diversas de um mesmo milagre: o de existir. Existir com dignidade, com fé (ou crença), com a coragem de reconhecer que o rosto do outro é a continuação do nosso. O rosto que nos reflete, que nos interpela, que nos devolve àquilo que poderíamos ser, se não tivéssemos esquecido o essencial.

Aprendi que o Natal não é uma suspensão luminosa do tempo, mas uma convocação da fragilidade. Recorda-nos que o ser humano é um ser vulnerável — e, por isso mesmo, indefinido. Porque o amor, quando credível e sem cálculo, é a única força capaz de refazer o mundo a partir do que é pequeno, silencioso e verdadeiro.

Que este Natal nos encontre vigilantes e despertos: para ver antes de ser vistos; para escutar antes de responder; para compreender antes de julgar; para cuidar antes de exigir.

Que a paz não seja promessa, mas modo de ser. Que a verdade habite os gestos simples e as palavras que não mentem e que a fé (ou crença) — quando alicerçada na lucidez e na ternura — se torne a linguagem secreta da humanidade.

Porque, no fim, somos apenas isto: seres frágeis, efémeros, mas dotados da extraordinária capacidade de cuidar uns dos outros. É nessa fraternidade silenciosa — onde o amor não precisa de nome — que a vida reencontra o seu sentido mais puro.

António Travassos,
médico oftalmologista (OM n.º 15373/C-3334
(Um médico que ainda acredita que o Natal é humano — e que o Universo é o verdadeiro milagre.)

Feliz Natal!

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