O meu cérebro é a alma do meu pensamento. Uso-o para pensar o que devo. Educo-o para projetar um futuro diferente e me emancipar do “nāo” pensar. O passado só me interessa na medida em que me alicerça os próximos dias. Porque, sem alicerces, o cérebro não tem alma. Poderia ajudar-me a sobreviver e até a reproduzir-me, mas nunca a pensar.

Sem os outros, o meu cérebro não se desenvolveria. A sua plasticidade ficaria atrofiada e eu morreria sem nunca o envelhecer. Por isso, o meu cérebro é também uma parte da alma de cada um dos outros. Os que me permitem pensar. Sem eles não teria alma nem necessidade de a ter. Sentiria fome, poderia ter medo, mas nunca teria emoções, razão ou ambições. Nunca teria nascido. Sem os outros, não se nasce, nem se morre… Sem os outros não teríamos cérebro, nem alma, nem pensamentos. Se só houvesse um, esse outro estaria certamente condenado à extinção. Seria um Noé, sem arca.

De facto, os outros, os meus pais, a minha mulher, os meus filhos, as minhas netas, os meus doentes e todos os outros que me rodeiam, são a minha alma e a razão dos meus pensamentos. São eles que me fazem magicar.

Agradeço a todos o que sou e fico a dever-lhes o que ainda não consegui ser.

Para nos realizarmos como homo sapiens necessitamos de pensar mais nesses outros. Só assim aceleramos a evolução prodigiosa do cérebro humano. Só assim podemos contrariar o erro de Descartes – Pensamos porque os outros existem.

 

António Travassos

(médico oftalmologista)

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