A doença oncológica pode constituir um motivo para adiar a maternidade, mas já não constitui um impedimento para concretizar este sonho. A preservação da fertilidade é um tema obrigatório
O cancro da mama é a neoplasia maligna mais prevalente na mulher em todo o mundo, com uma incidência crescente em mulheres jovens na pré-menopausa.
Os tratamentos utilizados no cancro da mama resultam frequentemente em diminuição da reserva ovárica, insuficiência ovárica prematura e amenorreia (ausência de menstruação em mulheres em idade fértil) relacionada com o tratamento. De entre estes, a quimioterapia é a terapêutica mais agressiva, podendo causar danos diretos nos ovócitos e esgotar a reserva ovárica.
Os tratamentos hormonais, frequentemente indicados por 5 a 10 anos em tumores com recetores hormonais positivos, exigem que a gravidez seja adiada. Como estes fármacos podem ter efeitos teratogénicos (provocar malformações congênitas, defeitos funcionais ou do desenvolvimento embrionário ou fetal), a ideia de uma eventual gestação precisa de ser protelada até ao término ou interrupção segura do tratamento, sempre sob orientação médica. A radioterapia e a terapêutica imunológica também podem representar riscos para a saúde reprodutiva.
A preservação da fertilidade é, portanto, tema obrigatório na abordagem do cancro da mama nas mulheres em idade fértil. É fundamental conhecer os desejos reprodutivos de cada mulher e fornecer informações adequadas sobre as várias opções existentes. As técnicas atualmente disponíveis incluem a criopreservação de ovócitos (a mais utilizada), de tecido ovárico ou de embriões, e ainda a indução farmacológica de uma menopausa temporária. Apesar destas alternativas, ainda existem muitas barreiras à sua utilização, das quais destacamos a falta de informação e orientação, adequadas e em tempo útil, para um centro de Preservação da Fertilidade.
É importante referir que em Portugal todos os serviços públicos de Medicina da Reprodução têm uma rede de referenciação bem definida e dão resposta rápida e atempada a todos os doentes oncológicos que possam e queiram preservar a sua fertilidade.
Importa ainda salientar que os avanços mais recentes em medicina reprodutiva permitem avançar com a estimulação ovárica em qualquer fase do ciclo da mulher, para não atrasar o início do tratamento oncológico. Por outro lado, os protocolos atualmente utilizados impedem a elevação dos níveis hormonais para valores suprafisiológicos durante o crescimento dos folículos, o que torna este procedimento seguro nas mulheres com tumores hormonodependentes. Por último, a criopreservação de ovócitos deixou de ser considerada uma técnica experimental desde 2012, sobretudo devido à vitrificação, uma técnica de congelação ultrarrápida que evita a formação de cristais de gelo no interior do ovócito. Atualmente as taxas de gravidez com ovócitos congelados são comparáveis às obtidas com ovócitos frescos.
Em suma, existem atualmente técnicas de preservação da fertilidade nas doentes oncológicas que são comprovadamente eficazes, seguras e de acesso fácil e rápido. Para tal, estas têm de ser sistematicamente equacionadas na orientação global destas doentes, como forma de cumprimento das normas de boa prática médica, mas também ética, deontológica e jurídica. Isto numa abordagem que deve ser sempre multidisciplinar e centrada na doente, procurando reconhecer as particularidades de cada uma, nas várias dimensões a considerar, de modo a dar a melhor resposta às suas necessidades. A doença oncológica pode constituir mais um motivo para adiar a maternidade, mas já não constitui um impedimento para concretizar este sonho.
Margarida Silvestre
(Médica ginecologista-obstetra; OM n.º 33220)

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