Se todos jogam apenas para si, o jogo acaba – é a chamada tragédia dos comuns. A ética é, afinal, o modo como mantemos o jogo em pé…
Quando era criança, jogava à bola com os meus colegas. Eu estava calçado; alguns, porém, descalços. Lembro-me de ter, deliberadamente, perdido jogadas para não magoar ninguém. Sem o saber, aprendi naquele gesto simples o que mais tarde se tornaria uma filosofia de vida: respeitar o outro sem deixar de me respeitar a mim.
Durante muito tempo procurei apenas nunca pisar ninguém. Mais tarde aprendi também a impor-me e a não me deixar pisar. Entre estas duas margens — o cuidado ético e a firmeza assertiva — desenha-se o caminho da verdadeira convivência.
No campo de futebol improvisado, a desigualdade era palpável: uns tinham sapatos, outros não. Na vida, essa diferença assume muitas formas: poder, voz, oportunidade. Contudo, em todos os casos, a ética começa quando o mais forte se autolimita e o mais vulnerável se afirma. O equilíbrio social depende deste duplo gesto: a contenção voluntária de uns e a coragem de reivindicação de outros.
A consciência moral nasce quando percebemos que a força não deve esmagar, mas proteger, e que a vulnerabilidade não deve submeter-se, mas exigir dignidade. A justiça é o ponto exacto onde o cuidado e o respeito próprio se encontram e selam um pacto.
A teoria dos jogos ensina-nos que cada decisão é um equilíbrio entre o interesse próprio e o bem comum. Naquele jogo de infância aprendi que a vitória que fere o outro é uma derrota disfarçada. Mas também percebi que há momentos em que é necessário defender o próprio espaço, para que a partida continue justa e viável.
A vida em sociedade é o mesmo campo, apenas ampliado. Se todos jogam apenas para si, o jogo acaba — é a chamada tragédia dos comuns. Mas se cada um reconhece o outro e também o seu próprio valor, o jogo permanece vivo, equilibrado e belo. A ética é, afinal, o modo como mantemos o jogo em pé: juntos, mas inteiros na nossa individualidade.
Com Emmanuel Lévinas aprendi a força da expressão “responsabilidade pelo outro”. No entanto, com o tempo, compreendi que essa responsabilidade é também recíproca: não podemos ser apenas guardiões da dor alheia, mas devemos ser igualmente zeladores da nossa própria. O respeito só é completo quando inclui o outro na sua totalidade — e a nós mesmos.
Não pisar ninguém é reconhecer a humanidade do outro; não se deixar pisar é honrar a própria. Ambas as atitudes exigem coragem, discernimento e a humildade de se saber digno.
Ao escrever estas palavras, não quero apresentar uma doutrina formal, mas um modo de estar no mundo: agir com bondade sem resvalar para a ingenuidade, ajudar sem perder o próprio chão e lembrar que a paz não se constrói com submissão, mas com respeito mútuo e inamovível.
Procurei nunca pisar ninguém e aprendi também a não me deixar pisar. Porque o valor da vida não está em dominar ou ser dominado, mas em jogar limpo — connosco e com os outros. O jogo da existência só continua quando todos podem jogar de pé, com plena dignidade e clareza.
António Travassos
(Médico, Oftalmologista; OM n.º15373/C-3334)

Simples, curto, completo e perfeito. Na altura certa, embora qualquer altura seja ótima para esta lição. Neste lodaçal em que caminhamos na política eleitoral e governamental fazia falta lições destas aos nossos políticos e governantes. E mais ainda pessoas desta natureza e índole.
ReplyMuito obrigado Dr. Antonio Travassos
Curto, simples, completo e oportuno. Oportuno seria em qualquer altura. Mas neste atoleiro que atravessamos esta lição vem trazer alguma esperança. Esperança ao acreditarmos que a mensagem, como chegou a mim, chegará a muitos políticos e governantes, que, como eu, se sentirão tocados por esta lição e por esta ética e tragam para a política, para o governo e para as empresas esta ética.
ReplyResta me agradecer e testemunhar esta prática do Dr. António Travassos. Muito grato