Estamos agradecidos aos professores (embora uma ex-amiga pense que gracejo). Sinceramente agradecidos. Era preciso ficar em casa e eles acompanharam as nossas crianças, fizeram planos de aulas, aulas, exercícios, correções, vieram todos os dias, aturaram as crianças e alguns pais, subitamente despertos para a pedagogia ou intrusores crónicos das salas de aulas. 

Agora basta. Agora que já se sabe:

  1. que as crianças são raramente infetadas pela “coisa”
  2. que, quando adoecem, o fazem com pouca gravidade 
  3. que, ainda mais raramente, são a fonte do contágio

Agora deixem as crianças em paz.
Agradecemos à Direção Geral de Saúde (DGS) a competência do seu trabalho. Sem a DGS não estaríamos aqui para dizer isto. E ela assegura que façamos a transição com segurança, como todos desejam. E ao Ministério da Educação ter ajudado os professores e os alunos, se o fez. E ao Hospital Dona Estefânia por ter tratado tão bem as crianças com Covid-19 pediátrico e ter adquirido tanta competência nisso. 

Agradecemos com a mesma humildade com que desprezamos os profetas da desgraça, os treinadores de bancada, os que fazem prognósticos no fim do jogo, os que dizem que têm vergonha do Estado Social e exigem tudo ao Estado. Mas agora agradecemos que nos deixem em paz.

Tratem os doentes, todos os doentes, mesmo os que adoeceram de medo, façam os testes necessários, fechem o que pode ser perigoso, paguem a quem trabalha. Mas deixem as crianças jogar futebol, basquete, patinar, fazer skate, natação, karaté, (pode ser ténis), dançar, saltar no trampolim, subir às árvores, correr nos campos do interior onde não houve doença, tomar banho no mar Atlântico, em Ofir, ou em Valhelhas, onde nasce o rio que passa pela minha aldeia. Deixem-nos voltar à Escola, às carteiras, às salas de aula, aos recreios, aos corredores, à esfoladela, ao seguro escolar, ao copianço. Fechem os computadores, os tablets, os androides. 

O mundo é o mesmo, afinal. 

Há youTubes e TEDs, há imensos conteúdos disponíveis em todas as plataformas e nós, como já disse, imensamente agradecidos, vamos lá sempre que preciso for. 

Mas deixem as crianças ouvir, ao vivo, os senhores e as senhoras professoras. Mesmo que não digam coisas exatas. Que para isso é que há o contraditório e o exploratório.

Falta pouco para acabar o ano? Qual ano? Não vale a pena? Mas quanto é que vale a saúde mental das crianças? E o futuro?

Eu vi um menino, em lágrimas, que perguntava à mãe: isto vai ser sempre assim? Nunca mais há treinos? Nunca mais vejo os meus amigos? E garanti-lhe que sim. Acho que ele acreditou que eu estava a falar em nome dos adultos. Mas eu tenho falado com tão poucos adultos, nestes tempos.

Luís Januário
(Médico Pediatra)

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