É tão só uma hormona, mas com um papel fundamental na influência da saúde e da doença. Precisamos do cortisol para dormir melhor, para dar uma resposta ao stress diário, para regular as células imunitárias, para que os fetos desenvolvam os seus pequenos pulmões, para não engordarmos…. Mas, sempre em quantidade “quanto baste”. O excesso ou a produção insuficiente têm consequências
O cortisol é uma molécula importantíssima no nosso organismo; pertence à classe das hormonas esteroides e é produzida e libertada pela glândula adrenal (órgão de alguns centímetros, no formato de “cápsula” acima do rim). Esta hormona desempenha um papel fundamental no equilíbrio bioquímico e fisiológico do organismo humano e tem grande influência na saúde e na doença.
Sendo uma hormona esteroide, tem os seus recetores (proteínas às quais se ligam e “descodificam a mensagem”) no interior das células humanas, com efeitos epigenéticos, ou seja, têm a capacidade de influenciar a tradução do código genético, afetando o funcionamento e a função de células e tecidos, sendo essencial para manter a homeostase do organismo humano – as células têm capacidade de adaptação do seu funcionamento em função de alterações do meio, de acordo com as necessidades metabólicas para manter a viabilidade.
A libertação de cortisol pela glândula adrenal é regulada pelo eixo hipotálamo-pituitária-adrenal (HPA). O hipotálamo solta a hormona libertadora de corticotrofina (CRH), que estimula a glândula pituitária anterior a segregar a hormona adrenocorticotrófica (ACTH), que entra na corrente sanguínea até às glândulas adrenais, que são assim estimuladas a produzir e libertar o cortisol para o sangue. Sendo uma hormona lipossolúvel, atravessa facilmente as membranas celulares e liga-se a recetores de glicocorticoides (GR) no citoplasma das células.
Este complexo hormona-recetor viaja no interior da célula para o núcleo, onde se liga a sequências específicas de ADN, chamadas elementos de resposta a glicocorticoides (GREs), influenciando a transcrição e tradução de genes específicos, levando ao aumento ou diminuição da produção de proteínas. É através desta modulação da expressão genética que o cortisol exerce a maioria dos seus múltiplos efeitos fisiológicos. Além dos seus efeitos genómicos, o cortisol pode também exercer efeitos não genómicos, mais rápidos e que não envolvem a alteração da transcrição genética.
De entre as diversas funções do cortisol para manter a homeostase, salienta-se:
Resposta ao stress: é um mediador crucial na resposta do organismo ao stress, que afeta o funcionamento fisiológico e metabólico, mas também neuroquímico. Ajuda a mobilizar reservas de energia (glicose, ácidos gordos e aminoácidos) para enfrentar a situação de stress, suprime o sistema imunitário (o que pode ser benéfico a curto prazo para evitar respostas inflamatórias excessivas) e influencia o humor e o estado de alerta, porque induz ao gasto de triptofano, o aminoácido que é usado para a produção do neurotransmissor serotonina, associado à regulação do humor, do apetite e do sono. Embora a curto prazo seja adaptativo, a exposição crónica a níveis elevados de cortisol pode ter efeitos nefastos. O cortisol também influencia a perceção do stress e o comportamento.
Regulação da pressão arterial: tem um papel na manutenção da pressão arterial, embora os mecanismos exatos sejam complexos e envolvam a sua interação com outras hormonas (como a adrenalina e a noradrenalina) e o sistema cardiovascular, modulando a sensibilidade dos vasos sanguíneos a estas hormonas.
Ação anti-inflamatória e imunossupressora: possui propriedades anti-inflamatórias e imunossupressoras. Ao suprimir a libertação de substâncias inflamatórias (como citocinas e prostaglandinas), ajuda a controlar a inflamação no corpo e suprime a atividade de células do sistema imunitário. Esta ação é importante para controlar respostas inflamatórias excessivas e proteger contra danos nos tecidos, mas a longo prazo pode aumentar o risco de infeções. A inflamação excessiva está associada à libertação de citocinas e outras moléculas, que prejudicam o funcionamento das células, incluindo dos neurónios a nível cerebral.
Regulação do metabolismo da glicose: efeito hiperglicemiante – aumenta a glicémia (“açúcar no sangue”), através da estimulação da gliconeogénese (síntese de novo da glicose, no fígado, a partir de outras moléculas em circulação, como aminoácidos e glicerol, que não são hidratos de carbono, ou seja açúcares). Também inibe a captação de glicose nas células periféricas (como nos músculos e no tecido adiposo), reservando-a para o cérebro. Esta ação é crucial durante períodos de stress ou jejum, para garantir um fornecimento adequado de fontes de produção de energia. Nos diabéticos, o stress ativa este mecanismo e aumenta ainda mais a glicémia, prejudicando o controlo dos níveis de açúcar no sangue.
Metabolismo de proteínas e gorduras: influencia o metabolismo de proteínas e gorduras, promovendo a degradação de proteínas musculares (catabolismo proteico), para fornecer aminoácidos para a gliconeogénese, favorecendo a lipólise (degradação de triglicerídeos – gorduras – em ácidos gordos e glicerol) para disponibilizar fontes de energia alternativas.
O cortisol desempenha funções vitais para a manutenção da saúde, nomeadamente:
Regulação do ciclo circadiano (sono-vigília): os níveis de cortisol seguem um ritmo circadiano, com picos mais elevados pela manhã (preparando o corpo para a atividade) e níveis mais baixos à noite (promovendo o relaxamento e o sono), o que contribui para o ciclo sono-vigília. Assim, o cortisol, em níveis adequados, é essencial para acordarmos e nos levantarmos pela manhã, com capacidade de realizar ações proactivas.
Modulação da função imunitária: embora a longo prazo a exposição excessiva ao cortisol possa suprimir o sistema imunitário, níveis basais de cortisol são importantes para a regulação e maturação das células imunitárias, bem como para evitar uma resposta excessiva do sistema imunitário, que levaria a um estado de alerta permanente como se o organismo estivesse constantemente sob ameaça.
Manutenção do metabolismo energético basal: o cortisol ajuda a manter níveis adequados de glicose no sangue entre as refeições, garantindo a sua disponibilidade para manter a função cerebral e outras atividades metabólicas essenciais ao funcionamento homeostático do organismo.
Desenvolvimento fetal: O cortisol desempenha um papel crucial no desenvolvimento de vários órgãos e sistemas no feto, incluindo os pulmões. Sendo uma molécula essencial para manter um funcionamento adequado do corpo humano, a alteração drástica dos seus níveis pode refletir uma doença ou levar a situações patológicas quando a alteração é mantida. Por outro lado, há também doenças associadas a alterações do cortisol, realçam-se:
Hipercortisolismo (Síndrome de Cushing): a exposição prolongada a níveis elevados de cortisol pode levar à Síndrome de Cushing, caracterizada por sintomas como aumento de peso (especialmente na zona abdominal e face – “cara de lua”), depósitos de gordura na base do pescoço (“gibba de búfalo”), acne, pele fina e com hematomas fáceis, estrias violáceas, hipertensão, diabetes, fraqueza muscular, osteoporose, alterações de humor (depressão, ansiedade) e aumento da suscetibilidade a infeções. As causas podem estar relacionadas com a administração de glucocorticoides exógenos (iatrogénica), tumores na glândula pituitária que produzem ACTH (doença de Cushing), tumores nas glândulas adrenais que produzem cortisol ou produção ectópica (fora do local normal) de ACTH por outros tumores.
Hipocortisolismo (Doença de Addison): a produção insuficiente de cortisol pela glândula adrenal resulta na Doença de Addison. A causa primária envolve a destruição autoimune do córtex adrenal; a insuficiência adrenal secundária é causada por problemas na glândula pituitária que levam à produção deficiente de ACTH. Os sintomas podem incluir fadiga crónica, fraqueza muscular, perda de peso, diminuição do apetite, hiperpigmentação da pele e mucosas (na doença de Addison), tensão arterial baixa, tonturas e apetite aumentado por sal.
Inflamação Crónica: embora o cortisol tenha propriedades anti-inflamatórias, a sua regulação inadequada ou a resistência aos seus efeitos podem contribuir para processos inflamatórios crónicos associados a várias patologias. A regulação inadequada do eixo HPA e a sensibilidade dos GRs desempenham um papel importante na modulação da inflamação.
Stress Crónico: a exposição prolongada ao stress pode levar a níveis crónicos e elevados de cortisol, o que tem sido associado a um risco aumentado de várias doenças, incluindo doenças cardiovasculares, depressão, ansiedade e disfunção do sistema imunitário.
Depressão: a exposição prolongada a níveis elevados de cortisol leva à diminuição drástica de triptofano, causando défice de serotonina, o neurotransmissor do humor. Por outro lado, a indução excessiva da produção de citocinas e quimocinas pró-inflamatórias conduz à neuroinflamação, que, de acordo com a literatura mais recente está na génese de muitos casos de depressão, o que indica que o tratamento neuroquímico pode não ser totalmente eficaz se a neuroinflamação se mantiver.
Os níveis de cortisol podem ser medidos no sangue ou na saliva, sendo um possível biomarcador de bem-estar.
Em resumo, o cortisol é uma hormona pleiotrópica, com efeitos múltiplos e com diversos mecanismos de ação, que incluem a regulação metabólica, a resposta ao stress, a função imunitária e a manutenção da pressão arterial, sendo indispensável para a homeostase. O equilíbrio nos níveis de cortisol é crucial para a manutenção fisiológica. Tanto a deficiência como o excesso de cortisol podem ter consequências significativas para a saúde, sendo de destacar a importância da sua regulação adequada, dado que as suas disfunções estão intrinsecamente ligadas ao desenvolvimento de diversas doenças.
O cortisol é como o sal, o açúcar, o sol e até a felicidade: sem eles não se vive, mas tem de ser “quanto baste”.
Manuela Grazina
(Professora na FMUC, Investigadora, Comunicadora de Ciência e Mentora Científica)

Excelente explicacão!
ReplyÉ bem desafiante encontrar o equilíbrio do nível de cortisol. Na qualidade de paciente com Addison, reconheço bem as dificuldades, obrigando a um acompanhamento constante.
Após a leitura deste excelente artigo sobre o cortisol resolvi fazer o teste do cortisol pela saliva. Aguardo o resultado.
ReplyHá algum tempo, tive taquicardia diurna e nocturna quando acordava cerca das 4h/5h. Fiz eletrocardiograma. O resultado foi «normal». A minha médica atribuiu-a a ansiedade e medicou-me. Ultimamente não tenho tido batimentos cardíacos acelerados
mas sinto agitação interior (com batimento cardíaco 60/70) depois de
acordar e necessidade urgente de tomar o pequeno almoço. Acontece o mesmo à tarde (cerca das 17h) com sensação de fome que passa algum tempo depois de ingerir alimentos. Tenho 88 anos.
Boa tarde, Gostaríamos de lhe prestar os melhores esclarecimentos, mas as questões que coloca devem ser analisadas em contexto de consulta. Sugerimos que agende consulta com um médico cardiologista. Pode optar pelos nossos profissionais, se assim entender. Encontra-os em http://www.ccci.pt. Parabéns pela bela idade!
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