É através do treino orientado e repetido que se aproveita a capacidade do sistema nervoso de se adaptar e reaprender, contribuindo para ganhos funcionais significativos e para uma melhor qualidade de vida. A recuperação de pessoas com alterações do sistema nervoso é o alvo desta fisioterapia neurológica

Em Portugal, as doenças neurológicas têm um impacto crescente, sobretudo devido ao envelhecimento da população e ao aumento de sobreviventes com incapacidades e, consequentemente, com necessidade de fisioterapia. Entre estas condições, o Acidente Vascular Cerebral (AVC) continua a destacar-se pelo seu peso na mortalidade e na incapacidade: em 2023, as doenças cerebrovasculares foram responsáveis por 9.177 óbitos, representando 7,8% do total de mortes no país. Além disso, estima-se que 35% a 40% dos sobreviventes de AVC ficam com sequelas moderadas ou graves, frequentemente com impacto na marcha, no equilíbrio e na autonomia, necessitando de acompanhamento especializado e reabilitação.

Para além do AVC, enfrentamos um aumento progressivo de doenças neurológicas crónicas, incluindo condições degenerativas e também patologias raras, muitas delas com impacto prolongado na autonomia. A doença de Parkinson, uma das patologias neurodegenerativas mais frequente, tem uma prevalência estimada em cerca de 180 casos por cem mil habitantes. Entre as doenças neurológicas menos comuns, destaca-se a Esclerose Múltipla, com prevalência estimada em 64,4 por cem mil em Portugal. 

Já a doença de Charcot-Marie-Tooth é considerada uma das neuropatias mais frequentes entre as neuropatias genéticas, com uma prevalência estimada de cerca de 1 em 2.500 pessoas. Em todas estas situações é comum existir algum grau de incapacidade funcional (por alterações da marcha, equilíbrio, força e coordenação), reforçando a importância da fisioterapia neurológica no retorno à função e manutenção da autonomia nas atividades do dia-a-dia.

A fisioterapia neurológica é uma área especializada da fisioterapia que atua na recuperação de pessoas com alterações do sistema nervoso (cérebro, medula espinal e nervos). O objetivo é melhorar a mobilidade, a autonomia e a segurança no dia-a-dia, através de um plano de tratamento individualizado.

Numa sessão de Fisioterapia Neurológica, o fisioterapeuta começa por avaliar a mobilidade, força, equilíbrio, coordenação, marcha e limitações funcionais, definindo objetivos práticos e individualizados. O tratamento pode incluir treino de marcha e equilíbrio, sendo este um ponto fundamental, uma vez que várias condições afetam a forma de andar, a estabilidade e a confiança no movimento. Como tal, podem ser aplicadas técnicas para correção do padrão de marcha e das várias fases do passo, apoio do pé, simetria e coordenação de movimentos. O ensino de subir e descer escadas, bem como transpor obstáculos e caminhar em diferentes superfícies é outro ponto que deve ser trabalhado, bem como o equilíbrio estático e dinâmico. 

É nesta área que o recurso à utilização da robótica tem feito grandes avanços, podendo hoje em dia recorrer-se a equipamentos como o R Gait, ferramenta robótica importante para reeducação do padrão de marcha, ajudando a trabalhar simetria, coordenação e controlo do passo, com recurso ao feedback durante o treino, sendo especialmente útil em fases iniciais de recuperação. Também as passadeiras anti-gravíticas – como o R-Force – permitem treinar marcha com redução parcial do peso corporal, aumentando a segurança e diminuindo o esforço, por exemplo em casos de fraqueza, instabilidade ou dor, de forma a melhorar resistência sem sobrecarga.

Outro ponto fulcral é o fortalecimento geral para trabalhar a força que foi perdida que, em conjunto com técnicas de mobilidade articular, promovem estabilidade, mobilidade, previnem rigidez, encurtamentos e dor, fomentando o retorno da função. O treino da resistência e tolerância ao esforço são fundamentais para reduzir fadiga e aumentar a autonomia.

As técnicas de reeducação do controlo motor têm como objetivo melhorar a forma como o cérebro e o corpo comunicam para produzir movimento com qualidade e segurança. É especialmente útil em casos de alterações de coordenação, presença de movimentos mais lentos ou menos precisos, dificuldade em iniciar o movimento, tremor, rigidez ou espasticidade. Pode incluir exercícios de coordenação e dissociação de movimentos, treino de controlo postural e alinhamento, tarefas com feedback visual/tátil para aumentar consciência corporal ou repetição orientada para reforçar aprendizagem motora. 

O R-Touch, equipamento direcionado para a mão, apoia o treino de coordenação, controlo motor, equilíbrio e tempo de reação, através de exercícios e jogos dinâmicos, que desafiam a atenção e a velocidade de resposta.

O treino funcional é assim o elo entre a sessão e a vida real. Não é apenas um trabalho constituído por “exercícios isolados”, treina-se essencialmente aquilo que cada pessoa precisa para ser mais autónoma e segura. Tarefas como o sentar e levantar de uma cadeira, virar na cama e mudar de posição, transferências (cama/cadeira, cadeira/sanitário), andar com auxiliar de marcha, ou tarefas combinadas, como andar e virar a cabeça, ou andar e transportar objetos, são algumas delas, sempre com o objetivo de melhorar o desempenho no dia-a-dia, aumentar confiança e reduzir a dependência.

Todo este trabalho combinado com o auxílio destes equipamentos é sempre adaptado ao estado clínico e aos objetivos definidos, ajudando a tornar o treino mais eficaz, seguro e funcional. 

O plano de tratamento deve ser individualizado e adaptado às necessidades e objetivos de cada um. Qualquer pessoa que apresente alterações relacionadas com o sistema nervoso e impacto na mobilidade ou autonomia, incluindo casos como AVC, Parkinson, Esclerose Múltipla, lesão medular, traumatismo craniano, neuropatias (ex.: Charcot-Marie-Tooth) ou outras situações com dificuldade na marcha, desequilíbrio, fraqueza, rigidez ou perda de coordenação pode beneficiar com a fisioterapia, quer numa fase inicial, ou mais avançada. Além disso, através do treino orientado e repetido, aproveita-se a capacidade do sistema nervoso de se adaptar e reaprender, contribuindo para ganhos funcionais significativos e para uma melhor qualidade de vida.

A fisioterapia neurológica é um acompanhamento especializado e individualizado que tem como objetivo melhorar a mobilidade, aumentar a autonomia e promover segurança no dia-a-dia. Mesmo quando a recuperação é gradual, o trabalho consistente permite alcançar ganhos relevantes e manter a melhor funcionalidade possível. 

Maria João Pereira
(Fisioterapeuta; OF n.º 10779)

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