Só damos pela falta quando não temos, na fertilidade também é assim. A reserva ovárica ou a qualidade dos gâmetas são assuntos que passam a ser sérios quando se tem de falar disto, sem espontaneidade, sem conseguir fazer acontecer. Mas também há o tempo e a vida que passa e quando damos conta temos 50 anos. E agora? O que devia ter feito que não fiz?
É comum ouvir dizer que “a nossa fertilidade é tão efémera”, mas se assim é, o que poderemos fazer para cuidar dela? A fertilidade é um assunto que habitualmente só chega às pessoas quando querem ter um filho e não conseguem mas, muito antes disso, é importante divulgar, esclarecer e educar para que se consiga manter uma boa saúde reprodutiva.
É muito importante que, desde idades jovens, sejam adotados hábitos de vida saudáveis: Não fumar, evitar bebidas alcoólicas ou drogas e ter uma alimentação saudável. O tabaco, o álcool, as drogas e a vida sedentária aumentam o stress oxidativo celular com impacto direto na qualidade dos gâmetas (óvulos e espermatozoides).
Nas mulheres é evidente uma baixa precoce da reserva ovárica e nos homens há aumento da fragmentação do DNA do espermático responsáveis por dificuldades em engravidar ou por abortamentos de repetição. A obesidade ou o baixo peso provocam alterações hormonais e metabólicas que contribuem para a infertilidade. Também o uso de preservativo deve ser incentivado prevenindo as DSTs.
Os profissionais de saúde podem orientar para a avaliação precoce de risco de infertilidade. Nas mulheres, a presença de dores menstruais intensas, antecedentes de cirurgias abdominal ou pélvica e alterações acentuadas do peso devem ser avaliadas em consulta de especialidade, mesmo antes de tentarem engravidar.
Nas mulheres que desejam avaliar o seu estado reprodutivo, a realização de uma ecografia endovaginal por médico especialista e a recolha de sangue para a análise da Hormona anti-mulleriana (HAM) podem ajudar ao aconselhamento adequado.
Nos homens, a realização de um espermograma é um teste simples de avaliação da fertilidade.
Há várias causas de infertilidade, mas a idade é o fator de maior peso e adiar a maternidade por questões profissionais e sociais é uma realidade cada vez mais comum. Há riscos e limitações. A quantidade e a qualidade dos óvulos diminuem a partir dos 35 anos e ainda de forma mais acentuada depois dos 40 anos. O limite biológico natural pode ser contornado com tratamentos.
Se a mulher pretende adiar a maternidade é possível guardar o seu potencial reprodutivo para tentae uma gravidez mais tarde, com a criopreservação de ovócitos. Congelando em idades mais jovens, em que os ovócitos são de melhor qualidade, as probabilidades de sucesso no futuro, são maiores.
Neste caso, a mulher é submetida a estimulação ovárica, período em que deve fazer monitorização ecográfica do crescimento folicular e depois a punção dos folículos por via vaginal e sob sedação. Os ovócitos obtidos nessa punção são avaliados em laboratório e os maduros são vitrificados (congelação rápida a -196 ºC).
Na altura da sua utilização é necessário recorrer a técnicas de PMA (Procriação Medicamente Assistida) para que sejam fecundados em laboratório pelos espermatozoides e o embrião obtido será colocado dentro do útero. Esta técnica não garante uma gravidez, mas aumenta muito a sua possibilidade, quando a mulher pretende engravidar com os seus próprios ovócitos em idade mais tardia que, pela lei portuguesa poderá ser até aos 50 anos. No dia em que a mulher faz 50 anos, a legislação portuguesa não permite a realização de tratamentos de fertilidade, nem recorrer a técnicas de PMA.
Esta técnica de criopreservação dos ovócitos é muito importante e deve ter uma indicação médica, nos casos em que a mulher é portadora de alguma doença que aumente o risco de baixar a reserva folicular ovárica, como por exemplo a endometriose, doenças auto imunes e em algumas situações genéticas.
Nos doentes com cancro, que vão ser submetidos a quimioterapia, é obrigatório oferecer a criopreservação de gâmetas (ovócitos ou espermatozoides) ou de tecido ovárico (em situações mais específicas), antes do primeiro ciclo de tratamento em que são usados fármacos com toxicidade sobre as células reprodutoras. O cancro surge em idades cada vez mais jovens e muitos doentes ainda não cumpriram o seu projeto de parentalidade. Os tratamentos oncológicos são cada vez mais eficazes e cerca de 85% dos doentes com menos de 45 anos sobrevivem mais de 10 anos.
Preservar a fertilidade é já comum na prática clínica trazendo vantagens psicológicas e esperança no futuro para que estas mulheres possam adiar a maternidade.
Ana Peixoto
(Médica Ginecologista e especialista em Infertilidade e Medicina da Reprodução; OM n.º 29458)

Deixar um Comentário