Que a sua cirurgia é uma forma de arte, já todos sabiam, mas que para além do restauro de olhos há outras peças que nascem com estas mesmas mãos, nem todos sabem. Bem- vindos ao outro lado da vida do cirurgião oftalmologista      

 

Quem o conhece de perto, sabe bem como se define: um restaurador da obra de arte que é o olho humano. «Sempre que faço uma cirurgia tento respeitar a obra de arte que tenho em mãos. A perfeição de um olho, a forma como a natureza o fez evoluir é, de facto, demasiado grande para que nós possamos alterá-la ou possamos cometer qualquer gesto que perturbe essa grandiosidade». Qualquer atitude ou gesto menos refletido pode sempre comprometer o sucesso da cirurgia… Esta é a definição que António Travassos, cirurgião oftalmologista, faz quando fala da sua atividade profissional.

Só que, para lá do bloco operatório, António Travassos vive agora uma outra paixão, a de um jardim… As sementes saem de pequenas peças de Paulo Carvalho, Carrilho Lopes e Bordalo Pinheiro. Não precisa de as regar, mas são necessárias várias horas de trabalho matutino e noturno.

Sempre que pode é para ali que foge, para o seu jardim, que tem vindo a crescer com papoilas, jarros… Escolhida a semente, começa o trabalho de criação. Porque as flores não podem ser plantadas ao acaso. Há que perceber qual a luminosidade do local, a exposição ao vento e intempéries atmosféricas e é consoante esse esforço que as peças têm que ser trabalhadas e assentes em estruturas que permitam que esvoacem ao sabor do vento, sem que se melindrem com a intensidade. Detalhes, dirão uns, mas para António Travassos, é muito mais que isso, é dar vida ao jardim que começou a construir e se a peça quiser esvoaçar, ou avoaçar, ela deve ter condições para isso mesmo, o suporte, a base e uns quantos parafusos, tachas e molas, vão permitir essa fantasia de qualquer planta de jardim.

E como começou mais este projeto? Em Nisa, no Alentejo, porque não conseguiu encontrar nenhum artesão que fizesse os jarros que precisava. Um obstáculo ultrapassado com o desafio de construir as suas próprias peças. Primeiro, em acrílico, depois com sementes alheias e, muito em breve, com a germinação das suas próprias sementes. Meter a mão no barro vai ser a próxima etapa, segue-se o forno para cerâmica e…

Se um dia destes vir o médico-cirurgião sair a correr e a esfregar bastante o cabelo, saiba que corre para a oficina… a sua mais recente provocação.

 

     

 

Deixar um Comentário