Como espécie, nada seria o mesmo se não tivéssemos esta capacidade de acumular conhecimento e de o transmitir de geração em geração. Mas, hoje, as nove musas da Mnemósine não teriam capacidade para guardar tudo. A produção de informação é avassaladora e, quase por obrigação, consumimos tudo sem seleção

Está lá tudo. O que vemos e ouvimos, o que vivemos e experimentámos e ainda o que lemos. A memória individual é isto, todas estas somas. E tudo isto somos nós. É esta a nossa identidade. Ainda é preciso juntar-lhe a memória da história, da cultura, do grupo a que pertencemos e da sociedade em que vivemos.

O armazém é grande, não há problema, mas a forma como vamos otimizando o equilíbrio entre a informação necessária e a que não é necessária, está a acabar por criar aquilo que se designa por sociedade do esquecimento. Um paradoxo é verdade. Porque este é o tempo da informação abundante.

No início, o conhecimento era limitado e ficava aprisionado no individuo e no cérebro humano. De há 10 mil anos atrás até hoje, a espécie humana não mudou, apenas se acrescentaram auxiliares de memória. Primeiro, com histórias, lendas ou canções que andavam de boca em boca, depois com o desenho ou a representação pictográfica e, só muito “recentemente” a escrita. A partir daqui foi um non-stop. A informação multiplicou-se, ficou acessível a todos.

Para uns, a cultura manter-se-ia oral. O volume de informação seria sempre restrito e a memória era organizada e guardada por alguns membros. Os mais velhos tinham esse papel. Nalgumas sociedades ainda é assim.

No lado oposto e no mundo Ocidental, a informação deixou de pertencer só a alguns. Os mais velhos perderam poder e a informação avolumou-se em quantidades avassaladoras.

Perdeu-se a capacidade seletiva e as memórias acumulam-se sem filtro.

Num e noutro caso, é esta memória coletiva que faz a diferença. Como espécie, nada seria o mesmo se não tivéssemos esta capacidade de acumular conhecimento e transmitir isso mesmo de geração em geração. O pensamento de amanhã é assim que começa a ser construído.

Na Grécia antiga, a memória também tinha uma deusa, Mnemósine, a mãe das nove musas que comandavam o conhecimento. Não é um acaso, ou um capricho para satisfazer deuses. Sem memória, a espécie humana perderia o motor central da aprendizagem, como poderíamos saber o que já aprendemos ou como faríamos novas aprendizagens? Continuaríamos a ter de inventar a roda… Todos os dias.

Hoje, nove musas não chegariam para orientar todo o conhecimento. As novas tecnologias, a internet, as redes sociais… ajudaram a multiplicar a informação disponível. Não é por acaso que os tempos recentes se referenciem com as tecnologias de informação. A informação cresce, mas a espécie humana mantém-se a mesma.

A Medicina tem sido uma das áreas mais beneficiadas com o crescimento de todo este conhecimento. Nunca um médico teve tanta informação disponível sobre um só doente. Os exames de diagnóstico, apoiados nas novas tecnologias, têm gerado uma multiplicação de dados. Claro que o apoio à decisão e/ou diagnóstico tem de assentar em base de dados, cada vez mais complexas, e mais gigantescas e, presume-se, que é esta articulação entre informação disponível e observação clínica que irá proporcionar melhores cuidados.

O paradigma também pode ser outro, os constantes avanços tecnológicos, colocam-nos frente a frente a uma quantidade avassaladora de informação que, quase por obrigação temos de consumir, de forma acrítica e sem seleção. É a perda desse poder de seleção que, por contrassenso, está a fazer de nós, as sociedades do esquecimento…

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